IMPAR
É a imperfeição que faz de mim uma obra de arte perfeitamente humana.
'the man behind the bones', ou melhor, 'the bones behind the man'. Bem, não importa a ordem, tu leva fé e toca o bonde. Se rolar uma ladeira, vamo gritar e curtir o vento na fuça; mas se rolar um subidão sinistro, toma um gole e manda ver, porque o que não pode é ficar parado. 'Tira o pé do chão!'
É a imperfeição que faz de mim uma obra de arte perfeitamente humana.
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tiago ianuck
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14:03
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Brasileiro é assim, a gente dá um jeitinho e vai levando... Porrada, claro. O que mais poderia ser? Tiro de bala perdida? Ou você queria pirulito docinho caindo do céu? Pipoca a granel e uma piscina de cerveja, só em sonho, ou no Leblon, quem sabe até na Barra. Na Barra, me adoraria pendurar, fazer flexões e ainda sair com as mãos ardendo. O lance é que você não consegue, meu caro, partir pra mais de 10 flexões, nem valendo ponto, na prova do exército, nem valendo dinheiro no domingão da Eliana. Quem sabe mesmo sentir são as crianças, quando esfolam os joelhos ou quando cutucam com a língua o dente de leite mole. Aquele sanguinho gostoso e cutucado, quase um preâmbulo pra um orgasmo, um sorriso de janela e uma inocência imperturbável.
Sonha, brasileiro, sonha. Acenda o interruptor e se a luz não apagar, certamente é um sonho lúcido, já saberia dizer meu amigo waking life, sonho lúcido, vida acordada. Quem sabe a vida não seja um sonho e o sonho não seja a vida? Se for, certamente, posso concordar, com a frase mais bela de todos os tempos: os sonhos são reais, enquanto duram.
Já voei, já trepei, já mergulhei sem respirar, já soquei bandidos e policiais, já beijei quem não devia, já morri e já fui morto. Já fui agarrado por uma loira e uma morena num motel à beira de Mulholand Drive. Já assassinei, já fui preso e já gozei sem sujar a cena do crime. Já pequei por ser estranho, por ser animal e homem ao mesmo tempo. Já revivi momentos lindos da minha vida acordada. Amigo, amiga, os sonhos são reais enquanto duram.
Post em homenagem a Waking Life e a David Lynch.
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tiago ianuck
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Se não aguenta, porque leio?
Leio porque penso. E se penso, logo, existo. Mas se existo e leio, me transformo; o lance é que às vezes não me aguento, como um computador lento ou um esquimó nu, ao relento. Releio, para repensar. Se repenso, reexisto e se reexisto é porque estou ficando forte, troco as escamas, cortejo como um lorde e rolo nas camas. Mas lorde não rola nas camas alheias, apenas escreve com a pena feia as frases mais bonitas que poderia ter pensado. Mas se as já pensara antes, logo, existira só no passado. Se penso, existo, mas se escrevo assino o meu contrato, meu pacto com a eternidade. Existir na eternidade? Bobagem... só bobagem.
Já está na hora de criar um pseudônimo, como pessoa, como Pessoa, como herói, como demônio, como boca do inferno ou como uma simples menina, sonhando pular no brejo e beijar todos os sapos. Se nenhum deles virar príncipe, certamente é porque sapa também sou.
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tiago ianuck
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08:32
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É preciso trabalhar; nisso não há dúvida. Mas o que é trabalhar? Trabalhar é ter experiências positivas, é crescer. Se não há dignidade no teu trabalho, então você não está trabalhando e sim se submetendo. O dinheiro, ao final do mês pode parecer sustentar os pilares do lar, mas é preciso avaliar a devastação espiritual que um trabalho não-digno causa.
É preciso trabalhar, sempre: não faço apologia ao ócio. Mas encontrar o trabalho que te satisfaça, pelo menos um pouco a mais que claramente conjunte em experiências positivas para a alma, é fundamental. Não vale é ficar parado. O pior de tudo é que para aprender a reconhecer e diferenciar experiências positivas e experiências negativas, certamente você terá de provar as negativas. É através das experiências negativas que conhecemos as experiências positivas. Na prática, claro. Porque também é possível aprender as positivas sem experimentar as negativas e, vou dizer, com a maior sinceridade do mundo que se consegue isso ouvindo os mais velhos.
Os mais velhos de espírito, claro, de experiências. Às vezes a idade coincide com a experiência. Às vezes não, ou às vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Uma pessoa pode ser sábia para determinadas coisas e inexperiente em outras. E vice-versa.
E versa-vice, às vezes o dinheiro é pouco, mas se o espírito está rico, basta persistir mais um pouquinho, não desistir e levantar a cabeça e, sobretudo, acreditar. A vida é um exercício de fé contínua, pois no dia que deixamos de acreditar, morremos.
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tiago ianuck
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Matar-se é uma bobagem sem fundamento, pois o desejo de morte já é em si a própria morte, logo, não há sentido em se matar quando já se está morto. Àqueles que ficaram vivos, o meu mais sincero fodam-se. E àqueles que já morreram e, teoricamente, irei me encontrar, por favor, mantenham distância, pois posso parar a qualquer momento. Como estou dirigindo?
Não é que eu não tenha valor; o lance é que desaparecer é meu maior desejo de aparecer. E se eu tenho agora o poder de falar alguma coisa que terá o volume máximo da voz de minha morte, que seja algo pontual. Pois morrer é deixar de esconder a maldade do espírito, é romper a censura do corpo. Longe de mim o fardo de morrer como um herói, pois serei sepultado com a máscara do bom menino para a eternidade. Mas confesso que meu maior medo é voltar em outra vida, dessa vez dentro de uma pedra. Porque se minha alma fraca não conseguiu vencer com esse corpo flácido, na próxima será mais difícil, afinal, é assim, perdedor perde infinitamente, cai em queda livre, atravessa o chão e cai para sempre.
Enfim, cometer uma violência contra mim mesmo é o desejo de violentar todo mundo. No mais, tenho algo podre a adicionar: cortar os pulsos agora seria algo idiota demais. Quem sabe pular do mirante da Torre de TV? Ridículo. Eu só prolongo a minha vida porque não quero escolher a forma de minha morte. Pior de tudo, quando ela chegar na forma de câncer ou acidente de carro, vou desejar profundamente estar vivo. Porque no fundo eu sou apenas mais um que é do contra. Tem suicídio maior que estar morto e querer nascer?
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tiago ianuck
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09:03
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Sempre há uma escolha, por mais difícil que seja a situação, sempre haverá uma escolha. Só não faz a escolha quem não quer. Então já tá na hora de querer, não acha? Está na hora de construir alguma coisa, qualquer coisa que seja, desde um barquinho de papel (que não lembro mais como se faz) a uma casa completa (que de fato não sei como se faz), quem sabe um jardim. Quem sabe um filho ou uma filha brincando nesse jardim, jorrando água pela mangueira, fazendo um arco-íris bonito e mostrando feliz para o seu pai.
Como ser pai, sem ter sido filho? Porque a verdade é essa: se o seu pai não te assume, você perde a oportunidade de ser filho. Como me tornar um pai sendo filho somente da mãe?
Referências, referências, a nossa lucidez é a busca de referências; quando as referências somem por completo, resta a loucura. Resta só a loucura.
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tiago ianuck
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18:42
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Até quando é possível tolerar pisarem na sua cabeça com um coturno disfarçado de sapato social? Bom, ainda não sou capaz de responder meus anseios.
Por enquanto eu só consigo diagnosticar e descrever; a reflexão fica por conta do leitor. E quem sou eu pra julgar? O que eu quero dizer é sobre a contaminação deste lugar que eu trabalho. Em primeiro lugar eu preciso, puta merda, eu preciso falar sobre os zumbis. E antes que eu cometa algum engano melhor olhar a palavra zumbi no dicionário.
Zum-bi. Substantivo masculino. 1. (Religião) o corpo de uma pessoa morta ao qual é dado vida novamente, usualmente para fins maléficos; 2. (Informal) uma pessoa sem vontade própria, cujas reações são sem vida.
As descrições resumem aqueles da corporação. Não todos, mas pelo menos a maioria daqui, dessa corporação em que trabalho. São zumbis, sem vontade própria, caminham conforme as setas no chão. A propósito, eu estou me tornando um zumbi e sei que minha inquietação é inaceitação. Eu não quero esse destino para mim. E luto. E me debato. E esperneio. E chamo atenção.
Chamo atenção. É isso. Sem querer, mas chamo. Já era pra mim. Sou um caso perdido. E lá vem o advogado da empresa, marchando lento no corredor, com os olhos vermelhos, plenamente abertos, denunciando a insônia de meses, quem sabe anos, vasculhando por sobre as baias e divisórias transparentes, assim como um medicamento potente caçando o câncer no corpo de uma pessoa doente. Ele está caçando o invasor, a ameaça à corporação. Até que enfim ele encontra os meus olhos.
Puta que pariu, ele me olhou nos olhos. Fodeu. Agora ele me pegou. Ele virá até aqui e vai pedir que eu o acompanhe até uma sala reservada, então ele vai me perguntar sobre as escoriações no braço, o dente quebrado e o comportamento hostil. Depois de uma breve cerimônia e uma articulação de palavras intermináveis para lidar delicadamente com meu caso - o meu caso - ele vai me comunicar que eu não pertenço mais à corporação.
Então é isso. Aconteceu. Ele me chamou para conversar. Fomos até a sala reservada para reuniões com um ar condicionado especial. Ele falou sobre meu caso e disse-me, finalmente, o que eu tanto esperava ouvir: acreditamos que você encontrará uma empresa que tenha o perfil adequado para você. Tenho certeza que você será muito mais feliz.
Bom, a gente vai se levantar e eu vou me despedir da equipe. Mas não, antes de sair da sala, o advogado pára em frente à porta obstruindo a passagem e coloca a mão no meu ombro. Por dentro eu estava me corroendo de raiva e pensava, porra, tira a mão do meu ombro! Eu não sou teu amigo, muito menos tenho vontade de ser. Olha pra tua cara, bigodudo feladaputa, se você não é capaz de dizer 'não' para o teu superior, então pra que saiu de casa hoje?
Uma breve exalada e ele diz pra mim que precisa me confessar a verdade.
– Você se tornou uma ameaça. – Disse ele.
Uma ameaça? Logo pensei? Do que porra ele tá falando? Como assim? Logo eu, tão pacato?! Nunca matei uma formiga... Mas eu nem precisei verbalizar pra ele me explicar. Eu falo sobre o seu comportamento hostil, disse ele. Eu falo sobre a forma como você vem vestido para o trabalho, sobre o seu jeito de andar.
Porra, o meu jeito de andar!? É claro que ele não tava querendo dizer nada disso, mas ele precisava de algo pra justificar sua rejeição por mim.
Mas então, quem sou eu pra questionar? Muito menos sou capaz de responder a eles. Mas garanto que quando eu conseguir a fumaça de uma resposta, quando eu conseguir balizar uma resposta, mesmo que sutil, singela, vou ter às mãos a fagulha necessária para explodir a cozinha fechada que ficou a tarde toda se preenchendo do gás que vazava da mangueira corroída do botijão.
Não, não tenha estranheza, a ficção vira realidade, a realidade vira ficção. Os personagens viram história, os vencedores viram facção; desentorte sua vida com o alicate da pureza da música. Porque se existe sombra de Deus, essa sombra certamente é a música. Nada de novo aqui, já diria Nietzsche que a arte é o que nos torna suportáveis... e eu diria que a música é que nos torna invencíveis, deuses, quem sabe.
Mas por falar em Deus, que tal uma breve reflexão sobre a evolução? Eu acredito que é impossível compreender seres mais evoluídos que nós. Veja bem, o gato jamais compreenderá uma máquina de lavar roupas, ou um cachorro jamais compreenderá os procedimentos cirúrgicos para retirada de um apêndice. Um rato jamais entenderá a psicologia humana. Mas nós, esses sim, compreendemos a fisiologia do cachorro, do gato, do rato, seus costumes, manias e deficiências. É por isso que eu volto a dizer que o ser humano jamais compreenderá um ser mais evoluído que ele, pois está fora de toda a ciência, de toda a compreensão humana.
E daí que se Deus é o ser maior e criador de tudo e todas as coisas, certamente é mais evoluído que o ser humano. Logo, o ser humano jamais compreenderá Deus. Assim, Deus é tudo, todas as coisas, um ser maior e, ao mesmo tempo, uma ameaça.
Uma ameaça. Lembrei de mim. Eu sou uma ameaça. Seria eu Deus? Certamente não. Mas com certeza o Deus de alguém. Note bem que eu posso ser o Deus das minhas coisas e isso não anula a possibilidade de existir um Deus maior que tudo e todas as coisas. Mas isso te dá a possibilidade de ser o Deus das tuas coisas, das coisas que você domina por completo.
Enfim, eu sou uma ameaça porque sou mais evoluído que eles da corporação. A corporação é nada mais que uma pirâmide de zumbis. Quem tá embaixo tá fodido, esmagado por todos os outros. E eu diria que sou um zumbi-lúcido, uma fagulha no tempo que pode desmanchar a pirâmide, explodir a cozinha cheia de gás. Logo, não sirvo mais pra ela. Não tenho o perfil, digamos assim, para amenizar o termo zumbi-lúcido.
Mas voltando, Deus não seria Deus se não fosse uma ameaça e Deus, meu caro, é o tempo. O tempo é o assassino de todas as vidas; é maior que todo ser vivo que conhecemos porque o tempo compreende tudo e todas as coisas, nada está fora do tempo, então reze para que o tempo passe longe da sua compreensão de mundo, porque quando você tiver uma breve compreensão do tempo, sentirá Deus te matando.
Ok, não adianta insistir, não dominamos e não dominaremos o tempo. Não temos como escravizar o tempo. O sonho de inventar uma máquina do tempo não passa de uma fantasia, porque numa hipotética situação em que o ser humano possa trafegar e interferir no passado de forma a alterar o futuro certamente causará uma série de efeitos colaterais em progressão geométrica e infinita, destruindo toda a lógica de mundo que temos hoje. Assim, quando estivermos fora de toda a compreensão humana, seremos mais evoluídos, um passo acima na evolução, porém desenhar essa evolução é impossível enquanto involuídos. É como esperar que um cachorro pilote um boeing 747.
Mas olha só, ao mesmo tempo, o tempo é o assassino de todas as vidas e parteiro de todas as esperanças. Não cabe a mim dizer que o tempo é um ser bom ou mal, porque a diferença entre tudo que nasceu e tudo que morreu vai ser sempre zero. E zero é o ponto inicial e o último número de uma contagem infinita seqüencial. Por isso o tempo é Deus. Ok, eu reconheço que as coisas ficaram tensas demais nesses últimos parágrafos.
Vou aliviar um pouco a barra e falar sobre arte. A arte imita a vida, ou a vida imita a arte? Não vou me deter a uma resposta, porque respostas exatas não servem para nada. Se eu disser ‘sim’ ou ‘não’ para a pergunta citada agora há pouco, qual seria a graça? A graça, a graciosidade, está nas pequenas coisas. As pequenas coisas é que fazem a vida valer a pena. Ou as pequenas coisas é que estragam ela. Pequenas coisas como um amassadinho na lataria do carro, pequenas coisas como uma quina da parede estragada ou um pedaço mínimo do seu violão carcomido por um cupim. Por isso as pequenas coisas são as grandes coisas. Liberdade é escravidão, amor é ódio e ignorância é força, já diria Orwell.
Mas foda-se, é o que eu dizia, nas pequenas coisas é que o mundo desaba. Já parou pra pensar que as formigas formam o maior animal do mundo? Se alguém conseguir dominar as formigas com algum tipo de ultrassom ou frequência por satélite terá o mundo aos seus pés. É claro que a gente consegue imaginar uma praga de gafanhotos ou uma peste de ratos na Europa, mas você ainda não tem idéia do que são capazes as formigas, se elas se juntarem, é claro. As formigas podem destruir toda a civilização humana num piscar de olhos. E não tô falando de formigonas cabeçudas com ferrões pesados. Essas estão incluídas sim, mas eu digo também sobre as formigas pequenas, as pequeninas, as micropequenas e as singelas.
E as formigas são inteligentes, talvez muito mais inteligentes do que a gente imagina. Afinal você sabe que quando coloca um pote de doces em cima de um suporte anti-formigas e, por descuido, a alça da leiteira encosta-se por menos de um décimo de milímetro na alça do pote de doces, certamente as formigas vão usar aquele pedaço como ponte até o alimento. As formigas são muito inteligentes, pena que elas não sabem disso, porque se soubessem já teriam destruído tudo e todas as coisas. E aí que está uma relação que talvez ninguém tenha ousado fazer: inteligência é destruição.
Inteligência é destruição.
Meu Deus, inteligência é destruição! Será que eu sou o primeiro a revelar essa equivalência? Provavelmente não, nos tempos de hoje a chance de alguém pensar a mesma coisa que você do outro lado do mundo é muito grande. E, no mais, no velho testamento, já foi dito de forma reversa, que são felizes os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus. Quanto mais inteligente você fica, mais você tem noção da sua insignificância perto do rei tempo. Então a destruição começa por si mesmo. A inteligência é sangue do capitalismo e ao mesmo tempo é o rombo na alma. Claro, alimentar o capitalismo não poderia ser algo saudável. O capitalismo é um sistema que funcionará até certo ponto e se autodestruirá, já diria Marx.
Voltando às formigas, eu diria que as formigas são a primeira coisa abaixo de Deus. Diante da ameaça de Deus ou das formigas, eu só digo uma coisa: respeito. Respeite Deus. Respeitem as formigas.
Ok, esse lapso de segundo entre o tapinha e outro nas minhas costas por parte do advogado me rendeu essa torrente de pensamentos. Será que ele percebeu o tanto que eu pensei, será que ele descobriu que minha mente é de fato uma ameaça à empresa? Será que ele percebeu o tanto que minha mente trabalhou enquanto ele terminava a frase "você se tornou uma ameaça"?
Por alguns instantes, enquanto eu pensava milhares de coisas, a voz do advogado parecia um replei em câmera lenta, grave, como um contrabaixo tocando debaixo d'água: voooocêeeee seeeee torrrnooooouuuu uuuuummmaaaaaaa aaaameeeeaaaaaçaaaaaaa.
Não sabia o que responder. Meus olhos piscaram duas, três vezes. Meus olhos estavam secos e comecei a morder meu lábio inferior. Minhas mãos começaram a suar e a cada instante que eu tentava interromper aquele ciclo de nervosismo eu suava mais, mordia mais meu lábio. Eu mordi tanto meu lábio que comecei a sangrar na boca. O advogado perguntou se eu estava me sentindo mal. É claro que eu tava me sentindo péssimo e aquele turbilhão de sensações mexendo nos meus órgãos internos era a raiva a qual eu fazia de tudo para reprimir, quando, de repente, soltei um peido, breve, mas sonoro.
Um silêncio pálido tomou conta dos olhos do advogado. Ele olhou para o relógio e disse-me: vá para casa; a empresa entrará em contato com você assim que tiver os papéis da sua demissão prontos para assinar. O advogado deu três passos em direção à saída e parou. Virou o corpo e olhou para trás, sem tirar os pés da posição, colocou os óculos escuros e falou: Luftal, 20 gotas. Ele se virou e foi embora.
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tiago ianuck
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10:32
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Embora o tanto que rezasse não chegasse a converter um por cento de seus pecados em perdão, Magno continuou suplicando por um suspiro de Deus enquanto mirava, covarde, suando como um porco por detrás do caramanchão, o cavalo preferido de Marília, um purossangue reluzente de tão negro, imponente e lindo, educado feito um príncipe dinamarquês, aparado e escovado diariamente, tratado com ração de primeira, feno e ferraduras importadas da Argentina.
O dedo no gatilho estava branco; seu sangue já não circulava nas mãos de tanta tensão. Os olhos fadigados piscavam, na tentativa de ficar sóbrio por mais alguns instantes e não perder o movimento do animal na mira de sua arma.
Decerto não se sabe o que se passara na cabeça de Magno ao achar que poderia reaver toda sua fortuna em um piscar de olhos, assim que matasse o cavalo de sua esposa, cumprindo como pagamento uma dívida de jogo à sua irmã Amanda.
* * *
O jogo? Cartas. Nada mais comum que cartas, um vício nojento e prosaico que qualquer um se envolveria. Mas o tipo de pôquer que os irmãos Magno e Amanda jogavam tinha algo de especial e, ao mesmo tempo, de sombrio.
Aquela brincadeirinha de apostar pequenos delitos nunca fora tão longe. Magno e Amanda não se lembram mais quando começaram a jogar dessa forma. Para eles, jogar pôquer valendo pequenos crimes era muito mais interessante que apostar dinheiro e muito mais excitante que uma trepada embriagada. Só que a brincadeira tinha suas regras. Apostar pequenos crimes só na última rodada, quando as fichas e o dinheiro de um dos participantes já tivesse terminado.
Outra: o meliante, pagante da dívida do jogo, não poderia sequer sonhar em ser citado em laudos criminais; tudo deveria ser feito às escondidas, dissimulado, oculto. Assim como a jogatina, secreta. No ano passado, numa intensa jornada de jogo noite adentro, lá pelas mais fadigadas rodadas, Amanda apostou furar os pneus do carro do marido, enquanto Magno apostou colocar laxante no mousse de chocolate do almoço de família do domingo.
Aparentemente uma infantilidade, esse tempero no jogo dava a cada cartada a pimenta, a sensação de uma escorregada de língua sobre uma boceta em transe a cada carta jogada à mesa, revelando uma sequência. Era o orgasmo fácil; era o beija-flor parando no ar, era o tempo se tornando infinito entre o exalar da fumaça do baseado e o aspirar da carreira de coca na mesa de jogo.
E Amanda quase sempre ganhava. Nessa ocasião, Magno teve de pagar a dívida e colocou laxante no mousse de chocolate do almoço em família de domingo. Os dois vibraram escondidos, sorriram por dentro um sorriso sombrio, uma piada velada entre irmãos contra as suas famílias distintas, uma sensação de poder macabro ao ver a fila formada na porta do banheiro.
Mas a brincadeira teve sua severidade quando um dos sobrinhos teve de ir para o hospital fazer uma lavagem intestinal, pois estava cagando tanto que começou a expelir sangue pelo cu, uma ruptura no intestino, decerto. Depois da bonança vinha a tempestade, pensava Amanda, silenciosamente, nos seus devaneios, na sua inversão de valores, entendendo o ciclo vicioso o qual estava embrenhada com seu irmão mais novo.
Mais novo, claro, guardadas as devidas proporções, Amanda com 45 e Magno com 43 anos de idade. A reunião dos dois se dava numa pequena quitinete alugada pelos dois, a qual chamavam de caverna. Lá na caverna, uma mesa grande e quadrada no centro, coberta por uma toalha de mesa de camurça verde, uma luminária que pendia do teto até o centro da mesa, iluminando somente a tensão do baralho, mais um frigobar abastecido regularmente com bebidas alcólicas e alguns snacks.
E numa dessas noites secas de agosto, três papelotes de cocaína, o baralho, um cinzeiro com muitos tocos de cigarro, dois copos de uísque e um monte de fichas espalhadas compunham a mesa de jogo. O silêncio da madrugada era rompido por sequências tensas de royal street flash, street flash. Você perdeu mais essa, Magno, disse Amanda, com a voz rouca, entoando um riso soberbo na sala, ou melhor, na caverna.
Na caverna ninguém mais entrava. Nem Marília, a esposa de Magno, nem Marcone, marido de Amanda. Na verdade os dois dissimulavam um grupo de estudos de direito constitucional, já que ambos irmãos eram advogados. Não importa. O boteco, a caverna, era só deles e ninguém se metia ali.
Então já era muito tarde mesmo, talvez tenha sido a noite de jogatina mais longa dos últimos 8 anos. Eles começaram às 20h e já era 4h37 da manhã. Exaustos, fumados, cheirados, drogados, embriagados, fixados em mais uma rodada, o jogo estava desequilibrado para Amanda, ela havia limpado todas as fichas de Magno.
Mas Magno achava que mais uma rodada e uma sequência mágica abençoaria suas mãos e ele viraria o jogo todo para ele. Nessa noite Magno havia apostado todo o seu dinheiro e já havia perdido todos os seus bens. Você nunca me deixa sair sem tentar mais uma, sua bruxa, disse Magno para a irmã.
Quero ver até onde você é capaz, disse Amanda. Quero ver se você é capaz de apostar o cavalo de Marília. Eu não posso apostar o que não é meu, disse Magno. E Amanda logo emendou, eu não quero que você aposte o cavalo, quero saber se você é capaz de apostar a vida dele.
Como assim?, disse Magno. Quero que você sacrifique o animal, disse Amanda. Magno sorriu sombriamente. Ele sabia que havia chegado a hora da rodada de apostar algum crime. Mas não imaginara que Amanda fosse perder a razão e pedir uma coisa daquelas.
Eu não posso, disse Magno. Ele é um animal purossangue, foi dado a Marília pelo meu sogro quando ela ainda era pequena. A estima pelo animal é muito grande. Eu não posso, eu não posso, disse Magno, se levantando e jogando o baralho sobre a mesa, puto. Não havíamos combinado atos cruéis, disse Magno.
Amanda o seguiu até a janela e colocou sua mão sobre o ombro de Magno. Ela disse, no meio das sombras e da fumaça da sala, que, justamente por não haver combinado a possibilidade de cometer atos cruéis que ela havia permissão para apostar aquilo. Ora, vamos, Magno, é assim no direito, só é proibido aquilo que está previsto. Se deixamos de falar sobre apostas cruéis é porque podemos fazê-las. E você sabe tanto quanto eu que aqui, nossa caverna, é nosso planeta, nosso microcosmo, aqui fugimos das leis ao fechar aquela porta.
Um silêncio tomou conta da sala. O vento nas árvores do lado de fora embalou os segundos que perfizeram a outra fala de Amanda: ...e no mais, você está aqui por que quer, Magno. Você pode parar de jogar agora se quiser, disse Amanda.
Aquelas palavras irritavam Magno. Desafiavam-no. Desequilibravam-no a razão. Magno ponderou numa exalada de ombros e disse: E deixar de lado a possibilidade de reaver todo o dinheiro que perdi hoje? Você não presta, Amanda, nunca prestou. Eu não tenho outra alternativa.
Ok, eu aposto a vida do cavalo de Marília. Se você ganhar mais essa, disse Magno, eu mato o cavalo de Marília, satisfaço seu desejo e você devolve o meu dinheiro. Se eu ganhar, poupo a vida do animal e vou reaver meu dinheiro. Fechado?
Fechado, disse Amanda. E partiram para a última rodada de jogo. É claro que Magno perdeu. E isso significava matar o cavalo de Marília para reaver seu dinheiro.
* * *
O tiro atravessou o animal pela costela, do lado esquerdo, perfurando o pulmão, dilacerando o coração e destruindo o outro lado do animal. Sabe, quando alguém leva um tiro geralmente a gente vê o pequeno furo com sangue de um lado, mas se esquece de que do outro lado a bala sai apavorantemente berrada, uma cratera enorme feita de dentro pra fora, jorrando sangue e pedaços de pele para todos os lados.
Marília acordou assustada, às 6h30 da manhã, com o barulho do tiro e do cavalo gemendo e relinchando. Olhou para o lado da cama onde deveria estar dormindo Magno, ficou reocupada e saiu correndo, vestiu um roupão e foi até o estábulo. Ao chegar, chorando, viu seu purossangue agonizando no meio do feno, agachou-se, não conseguiu tocar no animal, quando ouviu o choro de Magno há poucos metros dali. Magno estava sentado, chorando feito uma criança perdida, com a espingarda no colo. Marília não acreditava no que estava vendo. Muito menos entendia aquilo.
Uma sensação de pânico invadiu o coração de Marília. Não sabia se acudia o animal agonizando ou o marido que acabara de matar o seu cavalo preferido. Milhões de possibilidades passaram pela cabeça dela, menos a de uma aposta em jogo. O que aconteceu?, gritava Marília, desesperada, sem obter resposta.
Marília correu para casa e ligou para Amanda, pois sabia que a irmã de Magno era muito próxima a ele. Amanda veio correndo, dissimulou surpresa ao ver toda aquela cena. Enquanto o cavalo dava seu último suspiro, Magno murmurava no ouvido de Amanda: o jogo acabou, irmã, o jogo acabou.
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tiago ianuck
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16:01
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Você sabe que há silêncio no castelo quando consegue ouvir os gritos dos desesperados presos nas masmorras ecoando entre os pilares. Isso quer dizer que o silêncio faz barulho, sim. O silêncio é o som do planeta girando, monstruosamente barulhento, se movendo a centenas de quilômetros por hora. Mas a gente entende como silêncio porque já nasceu ouvindo um barulho que nunca cessa.
O silêncio é um som que nunca teve fim.
E por falar em cessar, o cessar fogo de uma guerra pode ser o silêncio mais torturante pra quem nasceu no meio de um conflito. É por isso que a mulher espancada nunca larga o homem violento. É por isso que a menina magoada nunca se afasta do rapaz grosso. É por isso que minha alma não abandona o meu corpo.
O corpo é o algoz da alma; é o capitão-do-mato que persegue o espírito a cada esquina dobrada, a cada frase pronunciada. O corpo é capataz; é limite, é fronteira da alma. É aduana das emoções, é o tributo dos sentidos.
Quando o corpo morre, a gente enterra ou crema. Mas quando a alma morre ninguém sabe direito o que fazer. Há quem quem diga que a alma não morre nunca; e outros vão dizer que a alma renasce imediatamente em outro lugar. Por hora prefiro dizer que a alma é água e todas estão correndo para o mar.
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tiago ianuck
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10:46
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Eu sempre achei que fazer prova objetiva era mais fácil que responder questões abertas. Engano. Engano meu, engano seu, engano de todo mundo. A prova objetiva é a menos objetiva de todas. Ou melhor, o objetivo da prova objetiva é te derrubar. O objetivo da prova objetiva é fazer você errar porque, veja bem, se de cinco alternativas somente uma é correta, logo, oitenta porcento da questão é conhecimento jogado no lixo.
Logo somos garimpadores. Garimpar uma alternativa entre cinco não é fácil nem pra quem estudou. Mais uma vez, entre cinco, uma, vinte por cento. E lá estou eu respondendo a alternativa correta entre as cinco letras a, b, c, d ou e daquela merda de concurso público. O foda é que eu sempre, eu repito, sempre escorrego na vadiagem. A resposta tá lá, na minha cara, eu estudei praquilo e pá, resposta errada.
É como se colocassem a gente com uma sapatilha em cima do lago congelado, convidassem a bateria da Mangueira pra tocar e pedissem pra você sambar feito uma mulata escolada. Agora samba, vai! Samba, porra, samba se não você dança!
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tiago ianuck
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19:36
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Foram tantas as razões pelas quais eu tive de partir que eu acabei acreditando que a partida seria algo natural. Logo, a naturalidade é algo que contempla todas as possibilidades de alguma coisa acontecer. Quando não é natural a gente sabe. E sabe, tem dias que você acorda e olha para o dia tão limpo, um azul sufocantemente azul, e pensa, que porra é essa?
Ok, estraguei o lindo dia. Risos. Mas para mim não seria diferente, um lindo dia pra mim é sinônimo de incompetência. Por quê? Porque eu vou ter de sair de casa, pronto, falei. Não é difícil entender porque a maioria das pessoas se sentem bem quando chove. Principalmente quando chove forte. Relâmpago, trovão, queda de energia. É tão mais fácil para mim, um brasiliense de classe média crescido numa bolha de sabão johnsons, encontrar aconchego num dia chuvoso do que num dia lindo. Não tô falando do friozinho, nem do cobertor, cara, tô falando de algo maior.
É tipo assim, se chove, eu não tenho que sair de casa e enfrentar minha dificuldade em me relacionar com as pessoas e o mundo. Sacou? Tipo, já tá chovendo pra caralho, você não vai resolver nada com esse tempo, então deita e vai ver um filme ou ler um livro. Enquanto que num dia bonito é mais ou menos assim, seu merda, levanta e vai pedir desculpas a quem você ofendeu. E como isso é difícil.
Ahn?! É claro que é. E essa inversão de valores vai corromper toda sua sanidade até você se obrigar a sair num dia de sol e ver que sua pele não está preparada para as temperaturas do novo milênio. Aí você volta para casa e começa a se proteger antes de sair. Bloqueador solar, bloqueador solar labial, bloqueador solar para os cabelos.
Sapatos são muito duros, então melhor um com sistema de amortecimento. Puma ou Nike? Well, just do it, o lance é ficar pronto para correr, da polícia, do bandido ou das bombas israelenses. Mas se tiver calor? Então o lance é usar uma roupa de tecido leve, de preferência branco. Mas aí o repórter editor do Fantástico acorda no meio da noite e resolve fazer uma matéria sobre a importância de usar roupas coloridas, que é pra atrair uma boa vibe.
Daí você baixa o seu guardarroupa em roupas coloridas e descobre que o número de assaltos a pessoas vestidas com roupas coloridas é maior porque elas dão maior intenção de serem desleixadas e estúpidas. Ok, trocamos tudo por preto, mas preto é quente, mas foda-se, com mil reais eu coloco ar condicionado no meu carro e visto preto quando eu quiser.
Ah, antes de sair com o carro melhor fazer um seguro, nunca se sabe quando a gente vai acertar um poste ou ser furtado. Ok, roupa preta, tênis com amortecedor, ar condicionado, seguro do carro, seguro de vida, poupança, xérox da identidade, mas autenticado em cartório porque eu posso ser parado por um policial militar e ser enquadrado como vagabundo.
Isso mesmo, um vagabundo, ou até mesmo um assassino, ou talvez assassino seja um termo pesado demais, mas se você sair pelado no meio da rua vai ser um criminoso. Tu vai ser enquadrado como atentado ao pudor, tu vai ser enquadrado por não carregar uma identidade e por não cobrir partes do seu corpo. Porra, como é fácil criticar o islamismo, a burca e o véu das persas, quando, se você parar para pensar, existem dispositivos legais que podem te prender se você não tapar sua genitália. Daí tu podes dizer que, tá, mas tapar a nuca é diferente de tapar o cu, quando o mais certo é duvidar de tudo, questionar e se perguntar se essa nossa liberdade não é conceituamente condicional.
Tudo é condicional, se você quiser ficar com uma pessoa não poderá ficar com outra, no fim, no nosso mundo que nós construímos alguém tem de perder para o outro ganhar. E dá-lhe antidepressivo, porque, ao fim, se eu nasci com um nome eu tenho de morrer com ele, mesmo tendo que apresentar minha habilitação para dirigir, pra correr, pra beber, para assinar decretos, para ter filhos, para pagar meia. Em uma sociedade em que passamos a duvidar do que os olhos vêem, ter a cabeça acima do pescoço deixou de ser suficiente, é preciso ter um papel comprovando. Isso funcionaria até certa época, porque se tornou fácil distorcer a realidade ao se dominar em nível doméstico a técnica do papel e da impressão. Qualquer um que tenha uma impressora jato de tinta com cores vibrantes e sensações que só-você-pode-saber-depois-que-comprar pode se transformar em qualquer outra pessoa do mundo.
Ok, chegamos numa nova era em que não adianta ter o comprovante. A informação tem que estar no sistema! O problema é que o sistema é lento, mas foda-se, se tá no sistema, é verdade. Então que me coloquem no sistema! E aí, what`s next? Qual o próximo passo? Eu não sei qual o próximo passo, mas sei que vai chegar uma hora que todo mundo é criminoso por alguma coisa, se já não o é. Qual o seu crime de hoje? Hoje ainda nem chegou na metade e eu certamente prejudiquei o meio ambiente ao escrever um recado num pedaço de papel e ao usar o detergente para lavar a louça.
Bom, é assim que funciona a nossa sociedade ocidental. A gente nasce e morre como uma estatística e a breve concessão de ter uma identidade está condicionada a um comportamento urbano totalmente falido, que nos dá choque constantemente, nos fazendo mudar de direção a cada instante. É o outdoor com a mulher gostosa, é a calda de chocolate descendo lindamente sobre um cone de sorvete de creme. É o sinal vermelho, o verde, logo ali, ligue agora, ligue grátis, cuidado pra não se molhar, não cair, piso escorregadio, zona de alto risco de acidentes, pega ladrão, segura esse cara aí, eu vou chamar a polícia, mas em briga de marido e mulher não se mete a colher.
É por isso que eu sou muito mais feliz quando chove. Quando chove não preciso sair de casa. Quando chove eu sei que não vai adiantar fazer nada a respeito do meu futuro, porque tá tudo molhado lá fora. E, no mais, eu volto a dizer que o mundo virou de cabeça para baixo e quem estava fora de casa se fodeu, caiu no espaço do nada. Chova-se.
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tiago ianuck
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15:23
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Não existe mais o trema em língua portuguesa. Apenas em casos de nomes próprios e seus derivados, por exemplo: Müller, mülleriano.
Quem se fodeu: agüentar, conseqüência, cinqüenta, qüinqüênio, freqüência, freqüente, eloqüência, eloqüente, argüição, delinqüir, pingüim, tranqüilo, lingüiça.
O professor Lingüiça nunca será o mesmo. Opa, peraí, prof. Lingüiça não seria nome próprio? Ok, enquanto isso...
PROF. LINGUIÇA - Chaves! Me diga uma palavra com o uso de trema!
CHAVES - Parkinson.
PROF. LINGUIÇA - Ora Chaves, Parkinson não tem trema.
CHAVES - Tem sim, Professor Linguiç... digo, professor Girafales. A minha avó tem Parkinson e ela é toda trema!
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tiago ianuck
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11:26
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Sabe o que é pior que perder milhares de vidas em uma guerra? É perder milhares de vezes a mesma vida a cada segundo, em uma guerra interna. Talvez assim as pessoas entendam o que é ser eu: articular uma enorme raiz de pensamentos para tentar responder racionalmente os anseios da alma. Não tem jeito. Os anseios da alma têm de ser respondidos com o coração; não adianta racionalizar. Eu vou dar a volta ao mundo de tanto pensar e não vou conseguir chegar ao lugar mais perto de todos, meu peito. Eu sou como um cachorro numa esteira rolante, sobre a qual está instalada um pedaço de frango assado na ponta de uma vara de pescar, logo acima da minha cabeça. Eu salivo, eu corro para alcançar o frango, a esteira gira e eu não saio do lugar; não alcanço o frango, não chego a lugar nenhum.
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tiago ianuck
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07:51
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Tick, você tá estranho. É eu sei, ando meio desligado. Eu não sinto meus pés no chão. Não, Tick, você tá estranho. É eu sei, tô ficando velho, rs. Como assim rs? Isso não tem graça. É que sei lá. Estou sendo invadido por uma monotonia. Por que você não faz um consórcio imobiliário ou alguma coisa assim? Bom, não sei, não tenho muito dinheiro. Então case-se! Dizem que quem quer ser feliz por mais de um mês deve se casar. Quem quiser ser feliz por mais de um ano deve ajudar os outros. Eu não sei. Eu não quero fazer nada. Estou completamente apático. São as drogas, digo, as drogas lícitas. Acho que quanto mais remédio eu tomo mais assombração me aparece. Mas não deveria ser diferente? Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece? É, devia ser, mas não é. Comigo nunca é, entende? Comigo é sempre o contrário. Sempre. Nunca.
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tiago ianuck
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13:02
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Tem horas que eu acho que pirei completamente; nas outras eu tenho certeza. Preciso assumir minha completa incompetência em me relacionar com outra pessoa, sejam desconhecidos, colegas, amigos ou namoradas. Por um momento eu reflito como deve ser um porre namorar comigo. Um saco, eu sou um saco, uma porra escrota emocionalmente dependente, um gatinho recém tirado da rua, todo esfolado que por vez ou outra adora um afago, mas, inesperadamente, do nada, surge com uma patada ou um arranhão gratuito. Fóda isso; me agüentar deve ser tão foda que nem eu to mais me agüentando e me pego chorando desesperado pelos cantos da casa. Acho que a melhor ilustração pro meu desespero é me imaginar como um tigre tentando escalar uma parede de vidro.
Bom, aliás, péssimo, mais fóda é saber que eu consigo entender tudo que acontece à minha volta e dificilmente consigo fazer algo pra mudar essa situação. Não que eu não tenha vontade, mas é um lance meio tipo assim compricado páporra pra alguém com um puta bloqueio emocional, um pai incompetente, ausente, viciado, infiel que nada tem a ver com isso, digo, se ele é viciado, incompetente, ausente e infiel o problema é dele, mas passou a ser meu problema a partir do momento que ele tentou vender a porra da liberdade condicional dele pra mim, me empurrando maconha pulmão abaixo, idolatrando a infidelidade e me confidenciando a impureza de um passado que não me diz respeito, muito menos a porra de uma pseudo-liberdade que ele queria que eu tivesse. Na verdade trata-se aqui de mais um caso de projeção pai-filho, tipo assim quando o pai tem um sonho de ser piloto de fórmula 1 e coloca todas as esperanças no filho para ser o tal idiota com o traseiro fincado no kart. É a mesma coisa, só que no meu caso ele queria que eu fosse livre. Livre? Porra, vai se foder, todo mundo quer que seu filho seja o John Lennon do novo milênio, mas ok, no fundo, ele tinha razão, digo, por um instante ele tinha razão, mas quem acorda fumando um baseado e dorme num lar evangélico não pode pregar porra de liberdade nenhuma! Afinal, a nossa maior liberdade é escolher a nossa prisão e cada um escolhe a sua, ok?
Então, antes que eu me esqueça, forchristsake daddy go fuck yourself one more time. Well, com`on, tinta fresca não pinta a realidade, a realidade é feita com sangue. É isso que eu quero, sangue negro ou quente, mas sangue, pois é o sangue que irriga a mente. Quero sangue que sirva para irrigar uma liberdade que me dê suporte no mundo social de hoje. Alô! De hoje, doismilenove!! Enfim, o que little-daddy-drugs-mode-on tentou me passar não me serviu de referencial nos seis anos que eu concedi àquela porra. Ok, tem outra, o meu relacionamento com Gabi foi por água abaixo naquela época e tenho certeza agora mais que nunca que a responsabilidade por essa piração foi minha, mesmo sabendo dos fatores externos e isso inclui a filhadaputagem do Senador com minha ex-chefe.
Caralho! Maior viagem, tu podes dizer que é maior viagem, mas tem tudo a ver. Me passa o chimas, piá, me passa logo essa merda pois eu preciso de um gole quente pra queimar o esôfago e reafirmar pra mim mesmo que esse foi o primeiro empurrão da primeira peça do dominó. É claro que eu também tive as minhas irresponsabilidades, infantilidades e infidelidades, mas nada que nenhum dos meus amigos e inimigos também não tenham cometido pior. Pára, não tô dizendo que todo mundo é féladaputa, se tem alguém lendo aí que quer continuar no mundinho fantasia é só ligar a percepção seletiva no canal exception. O canal exceção é assim, você repete o mantra até internalizar que a infidelidade acontece com todo mundo e dificilmente vai acontecer com você. Mas isso não é problema meu, digo, claro que é. Se não fosse não estaria nessa roda viva, pirapora, pirapira.
Mas a vida é como um trem, só anda pra frente; a vida não é igual metrô, onde o carro anda pra frente e pra trás, leva e trás as mesmas bilhões de pessoas e te faz sentir uma experiência nova a cada vez que anda, quando no fundo é a merda de um formigueiro em escala. Enfim, pra terminar, porque tem uma hora que já basta, né?, preciso dizer que tem coisas boas que acontecem, claro, mas que tudo embola no bate bola de quem fez tudo certinho na escola e reprovou na vida, porque na escola não me ensinaram a tocar a foda-se. Devia ter uma matéria especial, ou talvez um ano inteiro dedicado a nos ensinar a tocar o foda-se, afinal é uma das matérias que mais nos fazem falta hoje em dia. Então, tipo, sabe aquele idiota que ficava no fundo da sala, fumava escondido dos pais, tirava nota baixa em quase todas as matérias, fedia, faltava, cospia e xingava? Pois então, não se surpreenda se ele hoje for bem-sucedido (essa porra tem ou não tem hífen!? que merda de reforma ortográfica!) e tiver um carro melhor que o seu, um emprego melhor que o seu, uma bitch mais bitch que a sua. Não se espante se ele for um deputado ou senador coçando o saco enquanto você, bacharelado, pós-graduado e com os olhos fundos de tanto estudar tiver trabalhando pra ele alimentar as putas dele com filé batido na mamadeira.
Aí, depois que você decora a gramática inteira vem a porra da reforma ortográfica que tira o acento de ideia, prosopopeia, galileia, gonorreia e aquele idiota do fundo da sala ri da sua cara, porque, além de nunca ter gasto tempo em estudar a gramática, acabou acertando mais uma vez. Sim, o mundo virou de cabeça pra baixo e quem tava em pé se deu mal. Por isso, a partir de agora eu escrevo do jeito que eu quiser, somo quanto eu quiser e divido desproporcionalmente a meu bem entender, porque, no fim, nada vale de nada, a não ser a matéria do foda-se. Ou seja, no fim das contas a nossa vida está tão misturada com a experiência consumista que nossas imagens são meramente ilustrativas, qualquer semelhança é mera coincidência, a promoção é por tempo limitado e as ofertas estão condicionadas à disponibilidade em estoque. Mais uma vez, eu não tenho motivos pra não pirar.
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tiago ianuck
às
18:40
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Quando começarem as viagens espaciais, certamente deixaremos de lado nossas boundaries, ou seja, nossas fronteiras, juntamente com esse papo de americano, russo, brasileiro; seremos todos cidadãos da Terra. Essa encantadora visão é de Peter Russell (peterrussell.com). E eu acho sensacional. Bom, por enquanto, uma situação hipotética no Espaçoporto (nome rápido que eu sugiro em substituição ao Aeroporto):
EU – Uma passagem para Marte, por favor;
ATENDENTE – Somente ida, senhor?
EU – Ida e volta... Você ta me achando com cara de marciano?
ATENDENTE – Não senhor, desculpe... errh...
EU – Me coloca na janelinha, por favor.
ATENDENTE – Sim, senhor. O senhor vai querer cobertor extra?
EU – Não. Dê-me apenas um bom café
ATENTENDE – O senhor não vai dormir durante a viagem?
EU – Não. Por favor, só quero que acrescente um bom café.
ATENDENTE – Mas é uma viagem longa...
EU – Obrigado, mas só quero minha passagem para Marte, por favor.
ATENDENTE – Para Marte?
EU – SIM!
ATENDENDE – Ida e volta?
EU (perdendo a paciência) - É!
ATENDENTE - Senhor, nosso pacote já inclui café e cobertor durante a viagem.
EU - Ok, mas basta me dar o café. Não preciso do cobertor.
ATENDENTE - Senhor, não podemos retirar o cobertor do pacote.
EU - Por mil olhos de serpente mercuriana!! Cobra o café e o cobertor, mas só me sirva o café durante o vôo!!
A atendente, com três olhos e a pele recoberta por uma espécie de pelagem fina, ajeita o tradutor na orelha esquerda.
ATENDENTE – Humm... Desculpe senhor, meu tradutor estava caindo. Deixa ver se compreendi bem: o senhor quer uma passagem para Marte, somente ida, com café e cobertor extra?
EU - Puta intergaláctica que a pariu!! Eu quero uma passagem para Marte, ida e volta, com apenas café.
ATENDENTE - Senhor, o café e o cobertor fazem parte do pacote.
EU (puto) - Por Cristo! Me dê logo essa passagem com café e cobertor então!!
ATENDENTE (sorridente, mostrando a língua bipartida) - Gotcha! Eu sabia que o senhor ia dar preferência aos nossos serviços. Por favor, só um instante enquanto eu finalizo a compra...
A atendente começa a digitar no terminal. A tela holográfica tridimensional mostra a entrada de dados e a planta baixa da cabina.
ATENDENTE - Desculpe senhor, mas só temos vôos para Marte na semana que vem.
EU (dando nos nervos) – Como-assim?! Aqui no painel diz que ainda há 3 poltronas para o vôo de hoje!
ATENDENTE (soltando a língua e alcançando a quatro metros de distância uma mosca-centopéia numa bandeja de snacks da companhia de vôo) – Humm... Eu adoro trabalhar aqui, sempre rola esses salgadinhos de mosca-centopéia gratuitos. Nham, nham, bom, vamos lá, senhor. Humm... passagens... bom, eu compreendo o senhor, mas veja, essas três poltronas são para emergências durante o vôo intergalático. Não estão à venda.
EU (batendo a mão sobre o balcão, puto) – FILHA DE UMA H3HG-119 PROSTITUTA! Você me faz perder todo esse tempo, sabendo que não existe passagem para essa semana!
ATENDENTE - Senhor, se desejar, temos vaga na espaçonave para Mercúrio, com taxas especiais e descontos para terráqueos, além de um free-tour subterrâneo nas escotilhas tumarianas do centro geográfico do planeta Vênus...
Nesse instante pulei no pescoço da atendente, enforcando-a com muita força.
EU - Sua escrota, filha de uma rapariga H3HG-119, eu vou matá-la!
ATENDENTE (sufocando) - Não, por favor, pare, senhor, acalme-se, ehrrr, veja, acaba de surgir uma desistência! Veja a luz piscando no assento 234F! Que sorte não é mesmo?! Cof cof!
EU (soltando-a) - Hum... na verdade a sorte é sua, não é mesmo?
ATENDENTE (inserindo dados no computador) - Erhhh, claro. Bom, vamos fechar o pedido aqui, humm... ok, ok, ok... humm... pronto! O seu ticket senhor!
Depois do sufoco, parecia tudo certo. Peguei o meu ticket e saí com minha bagagem de mão, rumo à minha primeira viagem-interplanetária a passeio. Quero registrar: férias muito mais que merecidas.
A atendente reclama baixinho para si mesmo.
ATENTENDE - Terráqueos... sempre arrumando confusão. Humpf.
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tiago ianuck
às
15:40
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