quinta-feira, 5 de maio de 2011

Quem transforma o quê

É fácil saber o que é o amor: o amor é aquilo que transforma a coragem em suor.
Somente quem se mexe é quem sua.
Logo quem ama, se mexe.

O trabalho transforma a coragem em dinheiro.
O dinheiro transforma o amor em concreto.
Concreto não se transforma.
Abstrato não se concreta.
Abstração é transformação em movimento, esvaziada de pontos de partida ou pontos de chegada.

Arrepio transforma tempo em pausa brevíssima.

Nossa história se encaixa como mão e luva. Nossa estória se afasta como óleo e água.

Quem vive, verdadeiramente, não espera nada.

domingo, 21 de novembro de 2010

BILHETE

Eu poderia dizer que há muito tempo não escrevo. Mas é mentira! Tenho escrito escondido; escondo as coisas que eu escrevo. Escrevo bilhetinhos soturnos e escondo no meio do caderno e o caderno no fundo da mochila. A mochila, no fundo do guarda-roupas. E o guarda-roupas, sempre que posso, tranco. Se der tranco o quarto em que o guarda-roupas está. Tranco também a porta do corredor que dá pro quarto. Por sua vez,tranco a porta de entrada, na sala. Pego o carro e acelero insandecido na direção oposta à minha casa. E quando o combustível acaba eu já tô bem longe da cidade. Empurro o carro até o posto mais próximo e, além de abastecer, compro também um galão de gasolina. Me afasto mais alguns quilômetros e jogo o carro no acostamento, entro para um descampado deserto. Dou um banho de gasolina no carro, coloco fogo e saio correndo. Tiro as roupas e às incendeio. Saio nu correndo pela estrada e me jogo na frente de um caminhão em alta velocidade.

A polícia chega e então me repassam para a ambulância que vai retornar com meu corpo para a cidade. Na cidade, investigam minha vida, procuram minha casa. Arrombam a minha porta, vasculham o corredor, destroem a porta do quarto, avançam por todos os cantos até arrebentar o trinco do guarda-roupas e encontram minha mochila. Devassam as folhas do meu caderno, encontram meu bilhete.

Eles o leem.
E o rasgam.

IND

Não há como ser sustentável enquanto humanos. Para o planeta ser sustentável mesmo o ser humano teria que começar a ter hábitos indígenas genuínos. O que seria ótimo. Viver na floresta e ter tudo que é necessário ali; cada um cavando seu buraco para enterrar as fezes e curando-se das doenças com as plantas corretas. Se não há cura, não existe porque continuar vivendo. A ausência da cura é a cadeia alimentar funcionando. A primeira etapa da cadeia alimentar que devemos consertar é a nossa. Enquanto a gente interferir para prolongar a vida humana, pior estaremos fazendo ao planeta. O homem se tirou da cadeia alimentar, como se achasse esperto ou no direito de.

sábado, 10 de julho de 2010

MBçD

Quando Carlos abre os olhos, vê Cibele, meio embaçada...

"Você deveria ter me escutado, Carlos... Você deveria ter me escutado!"

sábado, 3 de julho de 2010

DZ ML

- O senhor já morreu?
- Sim, mestre, algumas vezes. Dezenas de vezes.

Volta, Carlos. Volta e arregaça aquele miserável!

domingo, 4 de abril de 2010

SERENO

Sereno – Mas, Carlos, por que exatamente, se me permite perguntar... por qual motivo seria a causa desse seu pedido de demissão, sabe, nós, patrões, gostamos de demitir e eu fico muito triste de não poder ter essa oportunidade com você.

Carlos – Bom, se esse fosse um filme de longa metragem, eu diria o que todo mundo diz: surgiu uma vaga naquela agência meio estrelinha, a Art&Lobby Comunicação, e, eu, como sou publicitário, preciso percorrer agências, conhecer pessoas, usar as drogas que elas usam e não to só dizendo de calça jeans e sapatinho zebra não, eu estaria dizendo sobre fumar o que elas fumam, beber o que elas bebem, transar o que elas transam e por aí vai. Então, continuando, espera... lembra aquela noite em que fomos pro pogobol dos publicitários, onde clientes e publicitários de ternos e gravatas saltavam e rebolavam sobre aquele saturno emborrachado? Foi quando aí nós nos trombamos pela primeira vez. Na sala de atendimento de pronto socorro do shopping (sim, era num shopping esse evento do pogobol das agências), você me perguntou o que eu fazia. E aqui estou eu hoje, fazendo o que você queria que eu fizesse pra ti em troca de alguns 100 trocados... lembra quando você sorriu pra mim quando eu respondi que era diretor de arte? CEM TROCADOS. É sem trocados, meu caro: sem hora pra sair, sem hora pra dormir e sem hora pra comer. Ah, e seeeemmm carteira assinada. (pausa) Ahh, aquele seu sorriso safado tinha me encantado... era capaz de me fazer aceitar um emprego que me pagaria mal, sem carteira assinada e sem hora pra sair, pra comer e pra dormir. Ah, e sem escrúpulos.

Sereno – Eu não entendo.

Carlos – mmm....

Sereno – eu não sei do que você está falando. Eu não estou entendendo... eu nunca disse nada que pudesse ofendê-lo desde os anos em que nos conhecemos até hoje. E aí você vem, senta aí dizendo que quer deixar a empresa, me fala um monte de coisas que nunca saíram da minha boca. Porra, Carlos, eu tenho sentimento também. Eu acho que você está sendo muito cruel comigo.

Carlos – Eu sei, eu também entendo você, mas o lance é que...

Sereno – Pode falar Carlos, pode falar, afinal isso aqui é uma agência de comunicação. E quer coisa pior que uma agencia de comunicação que não tem comunicação interna? Vou te falar uma frase que todo mundo já conhece, mas é a raiz da nossa profissão... Quem não se comunica, se...

Carlos - ...se estrumbica.

Sereno - ...se trupica, Carlos. SE TRUPICA! Meu Deus, em que mundo você está Carlos?!

Carlos – não, não é verdade, é se estrumbica. Ta vendo, Sereno, você fala errado, porra, tu me paga sapo com toda essa serenidade, mas fala as coisas erradas.

Sereno – Carlos... olha pra mim.

Carlos – (pausa, olhando sereno)

Sereno – (um leve sorriso) Carlos, Caarloos! Você tá gostando de mim?

Carlos – Não, não, claro que não, porra, Sereno, somos amigos há maior data!

Sereno – Droga. Droga, damn, fucking shit, god! Goooood! Eu não consigo demitir ninguém! Eu não consigo demitir ninguém... eu quero (chorando) ser chefe malvado e perverso (se desgraçando) e não tenho sequer a oportunidade demitir alguém (perdendo a cabeça)... Você! Você!!! Você não poderia ter se demitido... Carlos, eu tinha que te demitir, Carlos... eu preciso te fazer algum mal.

Carlos – Sereno, você ta bem? Eu, eu vou chamar um medico.

Sereno – não vai não! (sereno puxa uma arma de dentro da gaveta)

Carlos – (com muito medo, recuando) Nossa, Sereno, eu não sabia que você tinha uma arma! Eu, eu nunca nem vi esse negocio antes.

Sereno – É uma arma, não é um negocio, é uma arma, uma arma, uma arma! E quero que você me fale porque exatamente está deixando essa empresa que foi construída com muito suor, amor, carinho, sexo, drogas e rock n roll.

Carlos – Puta, Carlos, você é realmente o cara... você consegue ter a melhor empresa do mundo, só aqui tem tudo isso junto, suor, amor, carinho, sexo, drogas n rock roll.

Sereno – E não esqueça Philip Kotler, nosso buda, mestre espiritual do dinheiro e da forma como fazemos ele circular na banheira econômica do capitalismo. E aí, vai me dizer?

Carlos – Sereno, o lance é que eu não acredito na publicidade.

Sereno – (irônico) Meu Deus!? Um publicitário que não acredita na publicidade! Que recanto da terra poderá me acolher depois de tamanha infâmia!? (irritando-se)

Sereno pega uma maleta em uma das gavetas. Carlos está na outra ponta da sala, apavorado. Sereno se vira de costas enquanto se maqueia de Coringa, do Batman.
Sereno se vira triunfante exibindo seu tosco batom e pó branco na testa.

Sereno (psico!) – I`m the Joker. Rá!

Carlos – Meu Deus.

Sereno – Gostou da minha fantasia Carlos?! Rá rá rá, gostou da minha fantasia, Carlos? Essa é a fantasia que eu uso para destruir a estima daqueles que me podam a oportunidade de demitir alguém. E você prezado diretor de merda, um verme no crânio da ilha abandonada, tem total razão! A publicidade não vale nada e você não passa de um maquiador de cadáver. UM MAQUIADOR DE CADÁVER, você vende morte!

Sereno, perturbadíssimo, dispara acidentalmente a arma. Imediatamente toda a agencia se mobiliza na porta quando, alguns gritando, perguntando se estava tudo bem. Silêncio. Mais alguns segundos escuta-se o primeiro tudo bem, vindo de Sereno.

A redatora começa a chorar e diz que não, não ta nada bem. A assistente de arte diz também que ta tudo muito estranho e que eles deveriam entrar. Chamam Alaíde, a secretaria, que tem as chaves de todos os departamentos da agencia.

Carlinha – E aí gente, vamo entrar ou não?

Alaíde – Gente, eu não posso decidir sobre isso. Eu to aqui com as chaves, mas eu não sou responsável pela decisão de vocês, por favor, vocês sabem que eu aqui é a que menos ganha bem, meu dinheiro não dá nem pra comprar comida lá pra casa e eu não posso ficar sem esse meu emprego...

Cibele – Ok, eu me responsabilizo, eu acho que tem algo muito estranho acontecendo aí.

Cibele abre a porta e vê Carlos desmaiado, com um tiro no braço direito. Sereno está paralizado, catatônico, num canto da sala, com a arma pendurada pelos dedos, aponta para o chão.

Sereno – Ele queria deixar a agencia.

Cibele – O quê?

Sereno – Ele queria deixar a agencia...

Cibele – Cara, você é louco! (Cibele percebe a arma) Ahhh!

Cibele sai correndo e fecha a porta. Afoita, consegue trancar a porta e corre para o mais longe que poderia correr no raio de três metros da sala do chefe.

Rafa – O que aconteceu?

Cibele – Ele tem um arma! Ele tem uma arma! Ele atirou no Carlooooooosss... ;-(

Carlinha – A gente chama a policia?

Cibele – Ele tem uma arma! E eu sei que ele tem problemas! Eu sei que ele se maquia feito o Coringa para ameaçar a gente!

Rafa – Cara, eu não acredito, ainda bem que você falou. Eu também sofro ameaças dele maquiado de Coringa.

Carilinha levanta a mão e confirma que ela também.

Cibele (tentando se acalmar) – Então, a gente chama a policia ou não? Tem que decidir logo, o cara ta lá dentro descontrolado e com uma arma na mão... e o Carlos ta esmaiado, caralhooo, caralhoooooo

Rafa – Eu vou chamar a policia. (sai)

Enquanto disca, escuta outro disparo, todos dão um pequeno suspiro de terror e recolhem seus peitos ao aperto do desespero. Teria Sereno dado um tiro em si mesmo? Ou teria ele atirado no peito de Carlos, decidindo sua morte definitivamente?

O telefone da policia dá a mensagem “No momento, todos os nossos ramais estão ocupados, por favor, aguarde”

Rafa – Puta que pariu! Puta que pariu!

Alaíde volta do hall de entrada da agencia e anuncia baixinho que eles chegaram.

Carlinha - A policia?

Rafa (para Carla) – A policia nem atendeu ainda!

Alaíde – Não. Chegou o cliente das 16h.

Rafa – Fodeu.

Cibele – Quem é o cliente?

Rafa – É o pessoal da Disney.

Cibele – ahn?!

Rafa – Eles estão construindo uma Disneyland Brasil lá na Barra e estão aqui para acertamos a campanha deles. Um contrato milionário de publicidade.

Cibele – Caralho! Massa!

Rafa – Porra, massa? Quando eles souberem que tem um maníaco aqui na sala de reuniões maquiado de Coringa e atirando pra todo lado você tem alguma dúvida de que eles vão fechar com outra agência? E no mais, quem atenderia eles?

Cibele – Você, é claro, Rafa, você é o assistente de atendimento!

Rafa – Eu não posso fechar contratos.

Cibele – Pode sim. Aprenda a poder. Vá lá, feche esse contrato, marque um lugar fora da agencia, convide-os para um almoço no mais alto nível. Leva eles lá no Vivacci Ristorant... pague a conta, faça como se você fosse trepar... Chame pra jantar, pague a conta, sorria, faça carinhos e seja o príncipe de Hollywood por pelo menos 30 minutos e aí você créu! neles. E aí a gente pede um aumentoooo! Uhuu! Estrelinhas pra você!

Rafa – (desabafo) O lance é que eu... eu não acredito na publicidade. Somos apenas maquiadores de cadáveres.

Cibele – É... faz sentido. Mas antes maquiar cadáveres do que depilar políticos. Kkkkk!!!

Rafa – Kkkk, boa, boa, muito boa. Antes maquiar cadáveres do que ser o cadáver!

Outro tiro. Na sala de espera, o representante da Disneyland Brasil se assusta e pergunta para o colega se escutara o barulho. O que é isso? Pareceu um tiro, não pareceu? Não, não, deve ser algum problema no encanamento, sei lá, esse prédio é novo, mas todo prédio novo tem uns barulhos estranhos, tu já percebestes?

Entra Alaíde e oferece um café. Disse que Sereno já já viria atendê-los. Enquanto volta até a cena hostil na porta da sala de reuniões, Alaíde consegue chamar a policia.

Alaíde – Meninos, a policia já está vindo.

Cibele – Yes! Eu adoro aventura! Enquanto isso me conta aquele lance dos seres lunares, Rafa.

Rafa – Ah, isso não é hora!

Cibele – Conta, conta, conta, conta! Eu adoro quando você conta suas maluquices!

Rafa – Ok, o lance dos seres lunares, pra você também, Alaíde. O lance é que daqui um tempo, quando a gente voltar à lua e conseguir coloniza-la, pessoas morarão lá e quem nascer na lua será um ser lunar. Entende? Um ser lunar. Uahahahaha

Cibele - Mas de qual nacionalidade?

Rafa - USA, man, USA! É claro, você tem dúvida disso? A lua é dos estados unidos e a sensação que se tinha quando Portugal e Espanha dividiram o Brasil era mais ou menos essa... uma coisa nebulosa de incógnitas, perigos, armadilhas, seres pré-existentes... distância de casa, saudade.

Cibele - Pois eu te digo uma coisa. Alguém que nasça na lua já vai nascer sob uma gravidade diferente, talvez os músculos se atrofiem, pois não precisarão muito deles numa gravidade nove vezes menor que a atual. Você não cresceria muito. Talvez sua cabeça fosse maior, devido à falta de pressão para formar esse tipo redondo de cabeça... Talvez fosse mais oval... Os olhos também. Teríamos olhos grandes, escuros para proteger de tanta luz direta.

Rafa – Você não percebe o que você descreveu!? Você acabou de descrever um ET! Esse ET clássico que a gente conhece.

Cibele – É impressão minha ou o gatinho ta tentando me cantar com um papinho intelectualóide?

Rafa – Ai meu Deus.

Cibele – Por que de duas uma. Ou você ta querendo me cantar, ou você está fazendo apologia ao imperialismo humano sobre o universo, uma hegemonia preconceituosa e absurda, tomando por conta o direito, pela sua existência fundamentada no alicerce das verdades democráticas que existe universo para todos, o que vem de total encontro com um pensamento egoísta! (pausa) Nós não, estamos sós. Ponto!

Outro tiro.

Rafa – Ah, eu vou ter que entrar.

Cibele – Não, você não vai. A policia já ta chegando.

Rafa – Mas se a polícia chegar a gente perde o cliente da Disneyland Brasil. Eu vou. Se eu morrer, no mais, será apenas um egoísta a menos no mundo.

Cibele – Desculpe, não era pra ofender. Ahn... Rafa, vou precisar de um peso para segurar a porta, para que ela não feche depois que você entrar. Você pode me ajudar.

Rafa – Claro, só um instante.

Cibele – O que é isso!? Uma bigorna?! Rafa, você tem uma bigorna?! Meu Deus! Você tem uma bigorna de verdade! Isso é lindo! Eu... me sinto orgulhosa de você. Nunca pensei que um assistente de atendimento tivesse uma bigorna...

Rafa – Eu já falei que não tenho talento para atendimento? Eu queria era trabalhar na criação.

Cibele – é isso. Eu preciso confessar uma coisa antes que você entre lá... eu sou viciada em homens casados! Eu não consigo me livrar deles, nem deles de mim!

Rafa – Ok, mas por quê isso agora, Cibele?

Cibele – hum? Eu só quero dizer que gosto dos homens casados porque eles são mais fáceis! Ponto.

Rafa – E?

Cibele – E você é casado e eu gosto de você, porra, não entra aí não, vamo esperar a policia, cacete!

Rafa – (balbuciando) Você daria pra mim?

Cibele – o que foi que você disse, Rafa?

Rafa – Err, nada, eu quero dizer que, eu gosto de você também. E também te acho interessante.

Cibele – Se você acha interessante, logo você está interessado, certo?

Rafa – Nossa, você é bem direta, mesmo, né?

Cibele – Não sei do que você está falando. Eu só sou eu mesma e talvez seja isso que me atrapalhe um pouco.

Rafa – Com o lance dos homens?

Cibele – Dos homens. É, o lance dos homens.

Rafa – É só me perguntar então, eu respondo, eu sou homem!

Cibele – Por que é que vocês mentem?

Rafa – Ah, não Cibele, isso não é pergunta pra nossa idade. Quantos anos você tem? 15? 16?

Cibele – Ok, nossa pendência é outra. Vamos entrar ou não vamos entrar? Vamos esperar a polícia ou vamos atender a Disneyland Brasil?

CONTINUA. :)

domingo, 21 de março de 2010

GUEVARA

Boa noite, amigos.

Sei que todos estão se divertindo aqui neste estabelecimento. Comendo suas esfihas, seus quibes, tomando suas cervejas e discutindo seus lamentos. Mas preciso que me dêem uma breve atenção, pois tenho algo muito importante a lhes dizer. Algo sobre o futuro, algo sobre a nação. Algo sobre a liberdade e sobre um pensamento antigo, esquecido, mas muito além de maduro.

Hoje eu acordei com a sensação de que havia chegado o grande dia. O dia em que lavaria meu rosto na pia, e ao enxugar, frente ao espelho, ver-me-ia com a sensibilidade de um poeta e a certeza de um revolucionário.

E é por isso que estou aqui. Porque nós, latino americanos, continuamos escravos de um poder maior. Os povos mais violentos, aqueles que matam e sobrevivem às guerras, é quem contará a história da forma como quiserem.

Será que vocês percebem o mesmo que eu? Os bárbaros estão no poder! Os bárbaros estão no poder! Os bárbaros matam... os bárbaros assassinam... os bárbaros ceifam a liberdade. E se apoderam cada vez mais por meio da violência!

A violência das leis que só prejudicam os mais pobres...
A violência da fome... das doenças...
Nosso povo está doente... doente por não lutar pela sua liberdade e pelos seus direitos
A hostilidade do quebra-cabeça de promessas que usam para nos dominar.
...ahhh violência armada... massacres... assassinatos... nada é por acaso, meus amigos... nada é fruto do destino... Tiradentes? Zumbi dos Palmares? Che Guevara? Será coincidência, meus amigos, que todos os idealizadores de um tempo de liberdade morrem? Não é coincidência... não é destino, amigos... os bárbaros ceifam a liberdade! Os bárbaros estão no poder hoje, ontem e sempre! Sempre, se deixarmos...

Mas chegamos num ponto, amigos, que a violência não pode mais ser combatida apenas com palavras e idéias, senão morreremos iguais aos outros. A violência precisa ser aniquilada através de idéias, boas intenções e de uma contra-força armada. Muitos de nós... imaginem? Um exército de milhares de tiradentes... milhares de guevaras e lutheros... os bárbaros não resistiriam.

Morte aos bárbaros, para que a liberdade possa triunfar em paz!

Convido todos a visitarem o Comitê da Liberdade. E conhecerem um pouco mais sobre os ideais de libertação contemporânea. Agradeço a todos por terem me escutado e uma boa noite.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

IMPAR

É a imperfeição que faz de mim uma obra de arte perfeitamente humana.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

SAUDADE

Certa vez, Cícero havia combinado um código com Camila, caso fosse sequestrado ou estivesse em situação de perigo. Cícero a chamaria de Bianca, ao telefone, tenro como nunca, dissimulando um boa noite ou um eu te amo tranquilo, e logo se despedindo de Bianca. Esse era o código. Chamá-la de Bianca era hora de chamar a polícia, os bombeiros, o exército, a CIA, o FBI, o Supermouse.

Assíndeto irritante; sou viciado nos quebra-molas da gramática. Mas voltando ao tópico, inegável saudade proibida. Proibida por quem, afinal? Tantos anos e tantos exercícios com a única e improtestável missão de me ensinar que os meus sentimentos são livres.

Ao menos os sentimentos, somos livres para sentir, mas nem sempre tão livre para fazer o que quiser. Nossa maior liberdade é poder escolher nossa prisão. Mas quem plantou, afinal? Quem colheu, afinal? Todas as promessas quebradas por conta de uma liberdade confusa. Sinto sua falta, Bianca. Te amo, Bianca. Boa noite, Bianca.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

SOUER

She has no appeal for chocolate and I`m the souer one. Is there any sense on that? I`m definately a girl. Chocolate icecream please, ten scoops.

LIKE A FISH

Like a fish in a block of ice. Although the fish isn`t alive, it isn`t dead either. That`s me. I`m a fish in a block of ice. I`m waiting for the cientist to come, to find me and with the icepicker, unblock me from the unbearable cold. At least some of my desoxiribonucleic acid may be found, but certainly some of my history would be decoded in a few frames. Lost frames, lost words, lost lovers... who would be capable to assemble it back?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ENTRE

É entre os dedos e nas pontas das unhas que se percebe a sujeira da cova cavada. Escove as unhas, escove os dentes; lave as mãos, creme no rosto e creme nas costas, que é pra não pegar um câncer de pele. Pele pelada, lavada pelo sol, derretida pela sombra gelada, trepada leve e levada, escorre o suor por entre nossas pernas lavadas.

Cravadas as unhas nas costas, pressionadas as mãos contra a parede, um sorriso é tão natural quanto um gozo um tanto safado. Mas como uma tangerina, da casca espremida surgem as gotas de choro.

Do que eu tô falando? Porra! Páre de juntar palavras, você não engana mais ninguém. Eu sou um engôdo, um quebra-cabeça de palavras empilhadas sem o menor sentido. Isso se chama vala anticriativa.

Mas que porra de buraco é esse em que eu fui cair? Como eu não pude ver esse maldito buraco que eu mesmo cavei? Certamente estava distraído com algumas coxas rebolantes. Mas isso não é motivo pra criar barulho. Tirem-me daqui, grito eu, sem chance de ser ouvido. Afinal, lá em cima, todos estão em festa, bebendo, dançando e se divertindo.

Celular? Nem pensar, não vou usar essa merda pra pedir socorro. E todo esse tempo gasto gritando tentando entonar um hino de libertação? O buraco é ventre e é barulho, é água e é deserto. Talvez a festa terá de prosseguir sem mim.

Confuso demais; não, sou leve como um passarinho, vocês que insistem em vestir coletes pesados à prova de balas. Passarinho eu, vôo pra longe do buraco. Talvez a festa terá de prosseguir sem mim.

Tirem o cetro de mim, pois não sou príncipe de merda nenhuma. Meu condado é um fardo de feno e três grãos de feijão. Até pareço um drogado; escrevo como um drogado, perco a paciência como um drogado. O mundo é uma bola de gude e eu vivo a vida nessa bola de vidro.

Esquece vai. Isso passa. São só coisas do vodu de Maria marrenta, pé de cabra, olho de aranha, vela ao vento, cachimbo na boca do negro e dinheiro no bolso da jumenta.

Ninguém pode desriscar as palmas de minha mão. E digo mais, quem tentar desriscá-las, sangrará no mar salgado, sem chance de cicatrização.

sábado, 1 de agosto de 2009

VAI LEVANDO

Brasileiro é assim, a gente dá um jeitinho e vai levando... Porrada, claro. O que mais poderia ser? Tiro de bala perdida? Ou você queria pirulito docinho caindo do céu? Pipoca a granel e uma piscina de cerveja, só em sonho, ou no Leblon, quem sabe até na Barra. Na Barra, me adoraria pendurar, fazer flexões e ainda sair com as mãos ardendo. O lance é que você não consegue, meu caro, partir pra mais de 10 flexões, nem valendo ponto, na prova do exército, nem valendo dinheiro no domingão da Eliana. Quem sabe mesmo sentir são as crianças, quando esfolam os joelhos ou quando cutucam com a língua o dente de leite mole. Aquele sanguinho gostoso e cutucado, quase um preâmbulo pra um orgasmo, um sorriso de janela e uma inocência imperturbável.

Sonha, brasileiro, sonha. Acenda o interruptor e se a luz não apagar, certamente é um sonho lúcido, vida acordada. Quem sabe a vida não seja um sonho e o sonho não seja a vida? Se for, certamente, posso concordar, com a frase mais bela de todos os tempos: os sonhos são reais, enquanto duram.

Já voei, já trepei, já mergulhei. Já soquei bandidos e policiais, já beijei quem não devia, já matei, já morri e já fui morto. Já fui preso e já gozei sem sujar a cena do crime. Já pequei por ser estranho, por ser animal e homem ao mesmo tempo. Já revivi momentos lindos da minha vida acordada. Os sonhos são reais enquanto duram.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

SE

Se não aguenta, porque leio?

Leio porque penso. E se penso, logo, existo. Mas se existo e leio, me transformo; o lance é que às vezes não me aguento, como um computador lento ou um esquimó nu, ao relento. Releio, para repensar. Se repenso, reexisto e se reexisto é porque estou ficando forte, trocando as escamas, cortejando como um lorde e rolando pelas camas. Mas lorde não rola nas camas alheias, apenas escreve com as penas feias as frases mais bonitas que poderia ter pensado. Mas se já as pensara antes, logo, existira só no passado. Se penso, existo, mas se escrevo assino o meu contrato, meu pacto com a eternidade. Existir na eternidade? Bobagem... só bobagem.

Já está na hora de criar um pseudônimo, como pessoa, como Pessoa, como herói, como demônio, como boca do inferno ou como uma simples menina, sonhando pular no brejo e beijar todos os sapos. Se nenhum deles virar príncipe, certamente é porque sapa também sou.

domingo, 1 de março de 2009

BREVE ENSAIO SOBRE A MORTE

Matar-se é uma bobagem sem fundamento, pois o desejo de morte já é em si a própria morte, logo, não há sentido em se matar quando já se está morto. Àqueles que ficaram vivos, o meu mais sincero fodam-se. E àqueles que já morreram e, teoricamente, irei me encontrar, por favor, mantenham distância, pois posso parar a qualquer momento. Como estou dirigindo?

Não é que eu não tenha valor; o lance é que desaparecer é meu maior desejo de aparecer. E se eu tenho agora o poder de falar alguma coisa que terá o volume máximo da voz de minha morte, que seja algo pontual. Pois morrer é deixar de esconder a maldade do espírito, é romper a censura do corpo. Longe de mim o fardo de morrer como um herói, pois serei sepultado com a máscara do bom menino para a eternidade. Mas confesso que meu maior medo é voltar em outra vida, dessa vez dentro de uma pedra. Porque se minha alma fraca não conseguiu vencer com esse corpo flácido, na próxima será mais difícil, afinal, é assim, perdedor perde infinitamente, cai em queda livre, atravessa o chão e cai para sempre.

Enfim, cometer uma violência contra mim mesmo é o desejo de violentar todo mundo. No mais, tenho algo podre a adicionar: cortar os pulsos agora seria algo idiota demais. Quem sabe pular do mirante da Torre de TV? Ridículo. Eu só prolongo a minha vida porque não quero escolher a forma de minha morte. Pior de tudo, quando ela chegar na forma de câncer ou acidente de carro, vou desejar profundamente estar vivo. Porque no fundo eu sou apenas mais um que é do contra. Tem suicídio maior que estar morto e querer nascer?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

JARDIM

Sempre há uma escolha, por mais difícil que seja a situação, sempre haverá uma escolha. Só não faz a escolha quem não quer. Então já tá na hora de querer, não acha? Está na hora de construir alguma coisa, qualquer coisa que seja, desde um barquinho de papel (que não lembro mais como se faz) a uma casa completa (que de fato não sei como se faz), quem sabe um jardim. Quem sabe um filho ou uma filha brincando nesse jardim, jorrando água pela mangueira, fazendo um arco-íris bonito e mostrando feliz para o seu pai.

Como ser pai, sem ter sido filho? Porque a verdade é essa: se o seu pai não te assume, você perde a oportunidade de ser filho. Como me tornar um pai sendo filho somente da mãe?

Referências, referências, a nossa lucidez é a busca de referências; quando as referências somem por completo, resta a loucura. Resta só a loucura.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

BIKE

"Liberdade é bicicleta!" (Retirado do blog do Douglas)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

LUFTAL

Até quando é possível tolerar pisarem na sua cabeça com um coturno disfarçado de sapato social? Bom, ainda não sou capaz de responder meus anseios.

Por enquanto eu só consigo diagnosticar e descrever; a reflexão fica por conta do leitor. E quem sou eu pra julgar? O que eu quero dizer é sobre a contaminação deste lugar que eu trabalho. Em primeiro lugar eu preciso, puta merda, eu preciso falar sobre os zumbis. E antes que eu cometa algum engano melhor olhar a palavra zumbi no dicionário.

Zum-bi. Substantivo masculino. 1. (Religião) o corpo de uma pessoa morta ao qual é dado vida novamente, usualmente para fins maléficos; 2. (Informal) uma pessoa sem vontade própria, cujas reações são sem vida.

As descrições resumem aqueles da corporação. Não todos, mas pelo menos a maioria daqui, dessa corporação em que trabalho. São zumbis, sem vontade própria, caminham conforme as setas no chão. A propósito, eu estou me tornando um zumbi e sei que minha inquietação é inaceitação. Eu não quero esse destino para mim. E luto. E me debato. E esperneio. E chamo atenção.

Chamo atenção. É isso. Sem querer, mas chamo. Já era pra mim. Sou um caso perdido. E lá vem o advogado da empresa, marchando lento no corredor, com os olhos vermelhos, plenamente abertos, denunciando a insônia de meses, quem sabe anos, vasculhando por sobre as baias e divisórias transparentes, assim como um medicamento potente caçando o câncer no corpo de uma pessoa doente. Ele está caçando o invasor, a ameaça à corporação. Até que enfim ele encontra os meus olhos.

Puta que pariu, ele me olhou nos olhos. Fodeu. Agora ele me pegou. Ele virá até aqui e vai pedir que eu o acompanhe até uma sala reservada, então ele vai me perguntar sobre as escoriações no braço, o dente quebrado e o comportamento hostil. Depois de uma breve cerimônia e uma articulação de palavras intermináveis para lidar delicadamente com meu caso - o meu caso - ele vai me comunicar que eu não pertenço mais à corporação.

Então é isso. Aconteceu. Ele me chamou para conversar. Fomos até a sala reservada para reuniões com um ar condicionado especial. Ele falou sobre meu caso e disse-me, finalmente, o que eu tanto esperava ouvir: acreditamos que você encontrará uma empresa que tenha o perfil adequado para você. Tenho certeza que você será muito mais feliz.

Bom, a gente vai se levantar e eu vou me despedir da equipe. Mas não, antes de sair da sala, o advogado pára em frente à porta obstruindo a passagem e coloca a mão no meu ombro. Por dentro eu estava me corroendo de raiva e pensava, porra, tira a mão do meu ombro! Eu não sou teu amigo, muito menos tenho vontade de ser. Olha pra tua cara, bigodudo feladaputa, se você não é capaz de dizer 'não' para o teu superior, então pra que saiu de casa hoje?

Uma breve exalada e ele diz pra mim que precisa me confessar a verdade.

– Você se tornou uma ameaça. – Disse ele.

Uma ameaça? Logo pensei? Do que porra ele tá falando? Como assim? Logo eu, tão pacato?! Nunca matei uma formiga... Mas eu nem precisei verbalizar pra ele me explicar. Eu falo sobre o seu comportamento hostil, disse ele. Eu falo sobre a forma como você vem vestido para o trabalho, sobre o seu jeito de andar.

Porra, o meu jeito de andar!? É claro que ele não tava querendo dizer nada disso, mas ele precisava de algo pra justificar sua rejeição por mim.

Mas então, quem sou eu pra questionar? Muito menos sou capaz de responder a eles. Mas garanto que quando eu conseguir a fumaça de uma resposta, quando eu conseguir balizar uma resposta, mesmo que sutil, singela, vou ter às mãos a fagulha necessária para explodir a cozinha fechada que ficou a tarde toda se preenchendo do gás que vazava da mangueira corroída do botijão.

Não, não tenha estranheza, a ficção vira realidade, a realidade vira ficção. Os personagens viram história, os vencedores viram facção; desentorte sua vida com o alicate da pureza da música. Porque se existe sombra de Deus, essa sombra certamente é a música. Nada de novo aqui, já diria Nietzsche que a arte é o que nos torna suportáveis... e eu diria que a música é que nos torna invencíveis, deuses, quem sabe.

Mas por falar em Deus, que tal uma breve reflexão sobre a evolução? Eu acredito que é impossível compreender seres mais evoluídos que nós. Veja bem, o gato jamais compreenderá uma máquina de lavar roupas, ou um cachorro jamais compreenderá os procedimentos cirúrgicos para retirada de um apêndice. Um rato jamais entenderá a psicologia humana. Mas nós, esses sim, compreendemos a fisiologia do cachorro, do gato, do rato, seus costumes, manias e deficiências. É por isso que eu volto a dizer que o ser humano jamais compreenderá um ser mais evoluído que ele, pois está fora de toda a ciência, de toda a compreensão humana.

E daí que se Deus é o ser maior e criador de tudo e todas as coisas, certamente é mais evoluído que o ser humano. Logo, o ser humano jamais compreenderá Deus. Assim, Deus é tudo, todas as coisas, um ser maior e, ao mesmo tempo, uma ameaça.

Uma ameaça. Lembrei de mim. Eu sou uma ameaça. Seria eu Deus? Certamente não. Mas com certeza o Deus de alguém. Note bem que eu posso ser o Deus das minhas coisas e isso não anula a possibilidade de existir um Deus maior que tudo e todas as coisas. Mas isso te dá a possibilidade de ser o Deus das tuas coisas, das coisas que você domina por completo.

Enfim, eu sou uma ameaça porque sou mais evoluído que eles da corporação. A corporação é nada mais que uma pirâmide de zumbis. Quem tá embaixo tá fodido, esmagado por todos os outros. E eu diria que sou um zumbi-lúcido, uma fagulha no tempo que pode desmanchar a pirâmide, explodir a cozinha cheia de gás. Logo, não sirvo mais pra ela. Não tenho o perfil, digamos assim, para amenizar o termo zumbi-lúcido.

Mas voltando, Deus não seria Deus se não fosse uma ameaça e Deus, meu caro, é o tempo. O tempo é o assassino de todas as vidas; é maior que todo ser vivo que conhecemos porque o tempo compreende tudo e todas as coisas, nada está fora do tempo, então reze para que o tempo passe longe da sua compreensão de mundo, porque quando você tiver uma breve compreensão do tempo, sentirá Deus te matando.

Ok, não adianta insistir, não dominamos e não dominaremos o tempo. Não temos como escravizar o tempo. O sonho de inventar uma máquina do tempo não passa de uma fantasia, porque numa hipotética situação em que o ser humano possa trafegar e interferir no passado de forma a alterar o futuro certamente causará uma série de efeitos colaterais em progressão geométrica e infinita, destruindo toda a lógica de mundo que temos hoje. Assim, quando estivermos fora de toda a compreensão humana, seremos mais evoluídos, um passo acima na evolução, porém desenhar essa evolução é impossível enquanto involuídos. É como esperar que um cachorro pilote um boeing 747.

Mas olha só, ao mesmo tempo, o tempo é o assassino de todas as vidas e parteiro de todas as esperanças. Não cabe a mim dizer que o tempo é um ser bom ou mal, porque a diferença entre tudo que nasceu e tudo que morreu vai ser sempre zero. E zero é o ponto inicial e o último número de uma contagem infinita seqüencial. Por isso o tempo é Deus. Ok, eu reconheço que as coisas ficaram tensas demais nesses últimos parágrafos.

Vou aliviar um pouco a barra e falar sobre arte. A arte imita a vida, ou a vida imita a arte? Não vou me deter a uma resposta, porque respostas exatas não servem para nada. Se eu disser ‘sim’ ou ‘não’ para a pergunta citada agora há pouco, qual seria a graça? A graça, a graciosidade, está nas pequenas coisas. As pequenas coisas é que fazem a vida valer a pena. Ou as pequenas coisas é que estragam ela. Pequenas coisas como um amassadinho na lataria do carro, pequenas coisas como uma quina da parede estragada ou um pedaço mínimo do seu violão carcomido por um cupim. Por isso as pequenas coisas são as grandes coisas. Liberdade é escravidão, amor é ódio e ignorância é força, já diria Orwell.

Mas foda-se, é o que eu dizia, nas pequenas coisas é que o mundo desaba. Já parou pra pensar que as formigas formam o maior animal do mundo? Se alguém conseguir dominar as formigas com algum tipo de ultrassom ou frequência por satélite terá o mundo aos seus pés. É claro que a gente consegue imaginar uma praga de gafanhotos ou uma peste de ratos na Europa, mas você ainda não tem idéia do que são capazes as formigas, se elas se juntarem, é claro. As formigas podem destruir toda a civilização humana num piscar de olhos. E não tô falando de formigonas cabeçudas com ferrões pesados. Essas estão incluídas sim, mas eu digo também sobre as formigas pequenas, as pequeninas, as micropequenas e as singelas.

E as formigas são inteligentes, talvez muito mais inteligentes do que a gente imagina. Afinal você sabe que quando coloca um pote de doces em cima de um suporte anti-formigas e, por descuido, a alça da leiteira encosta-se por menos de um décimo de milímetro na alça do pote de doces, certamente as formigas vão usar aquele pedaço como ponte até o alimento. As formigas são muito inteligentes, pena que elas não sabem disso, porque se soubessem já teriam destruído tudo e todas as coisas. E aí que está uma relação que talvez ninguém tenha ousado fazer: inteligência é destruição.

Inteligência é destruição.

Meu Deus, inteligência é destruição! Será que eu sou o primeiro a revelar essa equivalência? Provavelmente não, nos tempos de hoje a chance de alguém pensar a mesma coisa que você do outro lado do mundo é muito grande. E, no mais, no velho testamento, já foi dito de forma reversa, que são felizes os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus. Quanto mais inteligente você fica, mais você tem noção da sua insignificância perto do rei tempo. Então a destruição começa por si mesmo. A inteligência é sangue do capitalismo e ao mesmo tempo é o rombo na alma. Claro, alimentar o capitalismo não poderia ser algo saudável. O capitalismo é um sistema que funcionará até certo ponto e se autodestruirá, já diria Marx.

Voltando às formigas, eu diria que as formigas são a primeira coisa abaixo de Deus. Diante da ameaça de Deus ou das formigas, eu só digo uma coisa: respeito. Respeite Deus. Respeitem as formigas.

Ok, esse lapso de segundo entre o tapinha e outro nas minhas costas por parte do advogado me rendeu essa torrente de pensamentos. Será que ele percebeu o tanto que eu pensei, será que ele descobriu que minha mente é de fato uma ameaça à empresa? Será que ele percebeu o tanto que minha mente trabalhou enquanto ele terminava a frase "você se tornou uma ameaça"?

Por alguns instantes, enquanto eu pensava milhares de coisas, a voz do advogado parecia um replei em câmera lenta, grave, como um contrabaixo tocando debaixo d'água: voooocêeeee seeeee torrrnooooouuuu uuuuummmaaaaaaa aaaameeeeaaaaaçaaaaaaa.

Não sabia o que responder. Meus olhos piscaram duas, três vezes. Meus olhos estavam secos e comecei a morder meu lábio inferior. Minhas mãos começaram a suar e a cada instante que eu tentava interromper aquele ciclo de nervosismo eu suava mais, mordia mais meu lábio. Eu mordi tanto meu lábio que comecei a sangrar na boca. O advogado perguntou se eu estava me sentindo mal. É claro que eu tava me sentindo péssimo e aquele turbilhão de sensações mexendo nos meus órgãos internos era a raiva a qual eu fazia de tudo para reprimir, quando, de repente, soltei um peido, breve, mas sonoro.

Um silêncio pálido tomou conta dos olhos do advogado. Ele olhou para o relógio e disse-me: vá para casa; a empresa entrará em contato com você assim que tiver os papéis da sua demissão prontos para assinar. O advogado deu três passos em direção à saída e parou. Virou o corpo e olhou para trás, sem tirar os pés da posição, colocou os óculos escuros e falou: Luftal, 20 gotas. Ele se virou e foi embora.

sábado, 17 de janeiro de 2009

ROYAL STREET FLASH

Embora o tanto que rezasse não chegasse a converter um por cento de seus pecados em perdão, Magno continuou suplicando por um suspiro de Deus enquanto mirava, covarde, suando como um porco por detrás do caramanchão, o cavalo preferido de Marília, um purossangue reluzente de tão negro, imponente e lindo, educado feito um príncipe dinamarquês, aparado e escovado diariamente, tratado com ração de primeira, feno e ferraduras importadas da Argentina.

O dedo no gatilho estava branco; seu sangue já não circulava nas mãos de tanta tensão. Os olhos fadigados piscavam, na tentativa de ficar sóbrio por mais alguns instantes e não perder o movimento do animal na mira de sua arma.

Decerto não se sabe o que se passara na cabeça de Magno ao achar que poderia reaver toda sua fortuna em um piscar de olhos, assim que matasse o cavalo de sua esposa, cumprindo como pagamento uma dívida de jogo à sua irmã Amanda.

* * *

O jogo? Cartas. Nada mais comum que cartas, um vício nojento e prosaico que qualquer um se envolveria. Mas o tipo de pôquer que os irmãos Magno e Amanda jogavam tinha algo de especial e, ao mesmo tempo, de sombrio.

Aquela brincadeirinha de apostar pequenos delitos nunca fora tão longe. Magno e Amanda não se lembram mais quando começaram a jogar dessa forma. Para eles, jogar pôquer valendo pequenos crimes era muito mais interessante que apostar dinheiro e muito mais excitante que uma trepada embriagada. Só que a brincadeira tinha suas regras. Apostar pequenos crimes só na última rodada, quando as fichas e o dinheiro de um dos participantes já tivesse terminado.

Outra: o meliante, pagante da dívida do jogo, não poderia sequer sonhar em ser citado em laudos criminais; tudo deveria ser feito às escondidas, dissimulado, oculto. Assim como a jogatina, secreta. No ano passado, numa intensa jornada de jogo noite adentro, lá pelas mais fadigadas rodadas, Amanda apostou furar os pneus do carro do marido, enquanto Magno apostou colocar laxante no mousse de chocolate do almoço de família do domingo.

Aparentemente uma infantilidade, esse tempero no jogo dava a cada cartada a pimenta, a sensação de uma escorregada de língua sobre uma boceta em transe a cada carta jogada à mesa, revelando uma sequência. Era o orgasmo fácil; era o beija-flor parando no ar, era o tempo se tornando infinito entre o exalar da fumaça do baseado e o aspirar da carreira de coca na mesa de jogo.

E Amanda quase sempre ganhava. Nessa ocasião, Magno teve de pagar a dívida e colocou laxante no mousse de chocolate do almoço em família de domingo. Os dois vibraram escondidos, sorriram por dentro um sorriso sombrio, uma piada velada entre irmãos contra as suas famílias distintas, uma sensação de poder macabro ao ver a fila formada na porta do banheiro.

Mas a brincadeira teve sua severidade quando um dos sobrinhos teve de ir para o hospital fazer uma lavagem intestinal, pois estava cagando tanto que começou a expelir sangue pelo cu, uma ruptura no intestino, decerto. Depois da bonança vinha a tempestade, pensava Amanda, silenciosamente, nos seus devaneios, na sua inversão de valores, entendendo o ciclo vicioso o qual estava embrenhada com seu irmão mais novo.

Mais novo, claro, guardadas as devidas proporções, Amanda com 45 e Magno com 43 anos de idade. A reunião dos dois se dava numa pequena quitinete alugada pelos dois, a qual chamavam de caverna. Lá na caverna, uma mesa grande e quadrada no centro, coberta por uma toalha de mesa de camurça verde, uma luminária que pendia do teto até o centro da mesa, iluminando somente a tensão do baralho, mais um frigobar abastecido regularmente com bebidas alcólicas e alguns snacks.

E numa dessas noites secas de agosto, três papelotes de cocaína, o baralho, um cinzeiro com muitos tocos de cigarro, dois copos de uísque e um monte de fichas espalhadas compunham a mesa de jogo. O silêncio da madrugada era rompido por sequências tensas de royal street flash, street flash. Você perdeu mais essa, Magno, disse Amanda, com a voz rouca, entoando um riso soberbo na sala, ou melhor, na caverna.

Na caverna ninguém mais entrava. Nem Marília, a esposa de Magno, nem Marcone, marido de Amanda. Na verdade os dois dissimulavam um grupo de estudos de direito constitucional, já que ambos irmãos eram advogados. Não importa. O boteco, a caverna, era só deles e ninguém se metia ali.

Então já era muito tarde mesmo, talvez tenha sido a noite de jogatina mais longa dos últimos 8 anos. Eles começaram às 20h e já era 4h37 da manhã. Exaustos, fumados, cheirados, drogados, embriagados, fixados em mais uma rodada, o jogo estava desequilibrado para Amanda, ela havia limpado todas as fichas de Magno.

Mas Magno achava que mais uma rodada e uma sequência mágica abençoaria suas mãos e ele viraria o jogo todo para ele. Nessa noite Magno havia apostado todo o seu dinheiro e já havia perdido todos os seus bens. Você nunca me deixa sair sem tentar mais uma, sua bruxa, disse Magno para a irmã.

Quero ver até onde você é capaz, disse Amanda. Quero ver se você é capaz de apostar o cavalo de Marília. Eu não posso apostar o que não é meu, disse Magno. E Amanda logo emendou, eu não quero que você aposte o cavalo, quero saber se você é capaz de apostar a vida dele.

Como assim?, disse Magno. Quero que você sacrifique o animal, disse Amanda. Magno sorriu sombriamente. Ele sabia que havia chegado a hora da rodada de apostar algum crime. Mas não imaginara que Amanda fosse perder a razão e pedir uma coisa daquelas.

Eu não posso, disse Magno. Ele é um animal purossangue, foi dado a Marília pelo meu sogro quando ela ainda era pequena. A estima pelo animal é muito grande. Eu não posso, eu não posso, disse Magno, se levantando e jogando o baralho sobre a mesa, puto. Não havíamos combinado atos cruéis, disse Magno.

Amanda o seguiu até a janela e colocou sua mão sobre o ombro de Magno. Ela disse, no meio das sombras e da fumaça da sala, que, justamente por não haver combinado a possibilidade de cometer atos cruéis que ela havia permissão para apostar aquilo. Ora, vamos, Magno, é assim no direito, só é proibido aquilo que está previsto. Se deixamos de falar sobre apostas cruéis é porque podemos fazê-las. E você sabe tanto quanto eu que aqui, nossa caverna, é nosso planeta, nosso microcosmo, aqui fugimos das leis ao fechar aquela porta.

Um silêncio tomou conta da sala. O vento nas árvores do lado de fora embalou os segundos que perfizeram a outra fala de Amanda: ...e no mais, você está aqui por que quer, Magno. Você pode parar de jogar agora se quiser, disse Amanda.

Aquelas palavras irritavam Magno. Desafiavam-no. Desequilibravam-no a razão. Magno ponderou numa exalada de ombros e disse: E deixar de lado a possibilidade de reaver todo o dinheiro que perdi hoje? Você não presta, Amanda, nunca prestou. Eu não tenho outra alternativa.

Ok, eu aposto a vida do cavalo de Marília. Se você ganhar mais essa, disse Magno, eu mato o cavalo de Marília, satisfaço seu desejo e você devolve o meu dinheiro. Se eu ganhar, poupo a vida do animal e vou reaver meu dinheiro. Fechado?

Fechado, disse Amanda. E partiram para a última rodada de jogo. É claro que Magno perdeu. E isso significava matar o cavalo de Marília para reaver seu dinheiro.

* * *

O tiro atravessou o animal pela costela, do lado esquerdo, perfurando o pulmão, dilacerando o coração e destruindo o outro lado do animal. Sabe, quando alguém leva um tiro geralmente a gente vê o pequeno furo com sangue de um lado, mas se esquece de que do outro lado a bala sai apavorantemente berrada, uma cratera enorme feita de dentro pra fora, jorrando sangue e pedaços de pele para todos os lados.

Marília acordou assustada, às 6h30 da manhã, com o barulho do tiro e do cavalo gemendo e relinchando. Olhou para o lado da cama onde deveria estar dormindo Magno, ficou reocupada e saiu correndo, vestiu um roupão e foi até o estábulo. Ao chegar, chorando, viu seu purossangue agonizando no meio do feno, agachou-se, não conseguiu tocar no animal, quando ouviu o choro de Magno há poucos metros dali. Magno estava sentado, chorando feito uma criança perdida, com a espingarda no colo. Marília não acreditava no que estava vendo. Muito menos entendia aquilo.

Uma sensação de pânico invadiu o coração de Marília. Não sabia se acudia o animal agonizando ou o marido que acabara de matar o seu cavalo preferido. Milhões de possibilidades passaram pela cabeça dela, menos a de uma aposta em jogo. O que aconteceu?, gritava Marília, desesperada, sem obter resposta.

Marília correu para casa e ligou para Amanda, pois sabia que a irmã de Magno era muito próxima a ele. Amanda veio correndo, dissimulou surpresa ao ver toda aquela cena. Enquanto o cavalo dava seu último suspiro, Magno murmurava no ouvido de Amanda: o jogo acabou, irmã, o jogo acabou.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

SILÊNCIO

Você sabe que há silêncio no castelo quando consegue ouvir os gritos dos desesperados presos nas masmorras ecoando entre os pilares. Isso quer dizer que o silêncio faz barulho, sim. O silêncio é o som do planeta girando, monstruosamente barulhento, se movendo a centenas de quilômetros por hora. Mas a gente entende como silêncio porque já nasceu ouvindo um barulho que nunca cessa.

O silêncio é um som que nunca teve fim.

E por falar em cessar, o cessar fogo de uma guerra pode ser o silêncio mais torturante pra quem nasceu no meio de um conflito. É por isso que a mulher espancada nunca larga o homem violento. É por isso que a menina magoada nunca se afasta do rapaz grosso. É por isso que minha alma não abandona o meu corpo.

O corpo é o algoz da alma; é o capitão-do-mato que persegue o espírito a cada esquina dobrada, a cada frase pronunciada. O corpo é capataz; é limite, é fronteira da alma. É aduana das emoções, é o tributo dos sentidos.

Quando o corpo morre, a gente enterra ou crema. Mas quando a alma morre ninguém sabe direito o que fazer. Há quem quem diga que a alma não morre nunca; e outros vão dizer que a alma renasce imediatamente em outro lugar. Por hora prefiro dizer que a alma é água e todas estão correndo para o mar.