Sereno – Mas, Carlos, por que exatamente, se me permite perguntar... por qual motivo seria a causa desse seu pedido de demissão, sabe, nós, patrões, gostamos de demitir e eu fico muito triste de não poder ter essa oportunidade com você.
Carlos – Bom, se esse fosse um filme de longa metragem, eu diria o que todo mundo diz: surgiu uma vaga naquela agência meio estrelinha, a Art&Lobby Comunicação, e, eu, como sou publicitário, preciso percorrer agências, conhecer pessoas, usar as drogas que elas usam e não to só dizendo de calça jeans e sapatinho zebra não, eu estaria dizendo sobre fumar o que elas fumam, beber o que elas bebem, transar o que elas transam e por aí vai. Então, continuando, espera... lembra aquela noite em que fomos pro pogobol dos publicitários, onde clientes e publicitários de ternos e gravatas saltavam e rebolavam sobre aquele saturno emborrachado? Foi quando aí nós nos trombamos pela primeira vez. Na sala de atendimento de pronto socorro do shopping (sim, era num shopping esse evento do pogobol das agências), você me perguntou o que eu fazia. E aqui estou eu hoje, fazendo o que você queria que eu fizesse pra ti em troca de alguns 100 trocados... lembra quando você sorriu pra mim quando eu respondi que era diretor de arte? CEM TROCADOS. É sem trocados, meu caro: sem hora pra sair, sem hora pra dormir e sem hora pra comer. Ah, e seeeemmm carteira assinada. (pausa) Ahh, aquele seu sorriso safado tinha me encantado... era capaz de me fazer aceitar um emprego que me pagaria mal, sem carteira assinada e sem hora pra sair, pra comer e pra dormir. Ah, e sem escrúpulos.
Sereno – Eu não entendo.
Carlos – mmm....
Sereno – eu não sei do que você está falando. Eu não estou entendendo... eu nunca disse nada que pudesse ofendê-lo desde os anos em que nos conhecemos até hoje. E aí você vem, senta aí dizendo que quer deixar a empresa, me fala um monte de coisas que nunca saíram da minha boca. Porra, Carlos, eu tenho sentimento também. Eu acho que você está sendo muito cruel comigo.
Carlos – Eu sei, eu também entendo você, mas o lance é que...
Sereno – Pode falar Carlos, pode falar, afinal isso aqui é uma agência de comunicação. E quer coisa pior que uma agencia de comunicação que não tem comunicação interna? Vou te falar uma frase que todo mundo já conhece, mas é a raiz da nossa profissão... Quem não se comunica, se...
Carlos - ...se estrumbica.
Sereno - ...se trupica, Carlos. SE TRUPICA! Meu Deus, em que mundo você está Carlos?!
Carlos – não, não é verdade, é se estrumbica. Ta vendo, Sereno, você fala errado, porra, tu me paga sapo com toda essa serenidade, mas fala as coisas erradas.
Sereno – Carlos... olha pra mim.
Carlos – (pausa, olhando sereno)
Sereno – (um leve sorriso) Carlos, Caarloos! Você tá gostando de mim?
Carlos – Não, não, claro que não, porra, Sereno, somos amigos há maior data!
Sereno – Droga. Droga, damn, fucking shit, god! Goooood! Eu não consigo demitir ninguém! Eu não consigo demitir ninguém... eu quero (chorando) ser chefe malvado e perverso (se desgraçando) e não tenho sequer a oportunidade demitir alguém (perdendo a cabeça)... Você! Você!!! Você não poderia ter se demitido... Carlos, eu tinha que te demitir, Carlos... eu preciso te fazer algum mal.
Carlos – Sereno, você ta bem? Eu, eu vou chamar um medico.
Sereno – não vai não! (sereno puxa uma arma de dentro da gaveta)
Carlos – (com muito medo, recuando) Nossa, Sereno, eu não sabia que você tinha uma arma! Eu, eu nunca nem vi esse negocio antes.
Sereno – É uma arma, não é um negocio, é uma arma, uma arma, uma arma! E quero que você me fale porque exatamente está deixando essa empresa que foi construída com muito suor, amor, carinho, sexo, drogas e rock n roll.
Carlos – Puta, Carlos, você é realmente o cara... você consegue ter a melhor empresa do mundo, só aqui tem tudo isso junto, suor, amor, carinho, sexo, drogas n rock roll.
Sereno – E não esqueça Philip Kotler, nosso buda, mestre espiritual do dinheiro e da forma como fazemos ele circular na banheira econômica do capitalismo. E aí, vai me dizer?
Carlos – Sereno, o lance é que eu não acredito na publicidade.
Sereno – (irônico) Meu Deus!? Um publicitário que não acredita na publicidade! Que recanto da terra poderá me acolher depois de tamanha infâmia!? (irritando-se)
Sereno pega uma maleta em uma das gavetas. Carlos está na outra ponta da sala, apavorado. Sereno se vira de costas enquanto se maqueia de Coringa, do Batman.
Sereno se vira triunfante exibindo seu tosco batom e pó branco na testa.
Sereno (psico!) – I`m the Joker. Rá!
Carlos – Meu Deus.
Sereno – Gostou da minha fantasia Carlos?! Rá rá rá, gostou da minha fantasia, Carlos? Essa é a fantasia que eu uso para destruir a estima daqueles que me podam a oportunidade de demitir alguém. E você prezado diretor de merda, um verme no crânio da ilha abandonada, tem total razão! A publicidade não vale nada e você não passa de um maquiador de cadáver. UM MAQUIADOR DE CADÁVER, você vende morte!
Sereno, perturbadíssimo, dispara acidentalmente a arma. Imediatamente toda a agencia se mobiliza na porta quando, alguns gritando, perguntando se estava tudo bem. Silêncio. Mais alguns segundos escuta-se o primeiro tudo bem, vindo de Sereno.
A redatora começa a chorar e diz que não, não ta nada bem. A assistente de arte diz também que ta tudo muito estranho e que eles deveriam entrar. Chamam Alaíde, a secretaria, que tem as chaves de todos os departamentos da agencia.
Carlinha – E aí gente, vamo entrar ou não?
Alaíde – Gente, eu não posso decidir sobre isso. Eu to aqui com as chaves, mas eu não sou responsável pela decisão de vocês, por favor, vocês sabem que eu aqui é a que menos ganha bem, meu dinheiro não dá nem pra comprar comida lá pra casa e eu não posso ficar sem esse meu emprego...
Cibele – Ok, eu me responsabilizo, eu acho que tem algo muito estranho acontecendo aí.
Cibele abre a porta e vê Carlos desmaiado, com um tiro no braço direito. Sereno está paralizado, catatônico, num canto da sala, com a arma pendurada pelos dedos, aponta para o chão.
Sereno – Ele queria deixar a agencia.
Cibele – O quê?
Sereno – Ele queria deixar a agencia...
Cibele – Cara, você é louco! (Cibele percebe a arma) Ahhh!
Cibele sai correndo e fecha a porta. Afoita, consegue trancar a porta e corre para o mais longe que poderia correr no raio de três metros da sala do chefe.
Rafa – O que aconteceu?
Cibele – Ele tem um arma! Ele tem uma arma! Ele atirou no Carlooooooosss... ;-(
Carlinha – A gente chama a policia?
Cibele – Ele tem uma arma! E eu sei que ele tem problemas! Eu sei que ele se maquia feito o Coringa para ameaçar a gente!
Rafa – Cara, eu não acredito, ainda bem que você falou. Eu também sofro ameaças dele maquiado de Coringa.
Carilinha levanta a mão e confirma que ela também.
Cibele (tentando se acalmar) – Então, a gente chama a policia ou não? Tem que decidir logo, o cara ta lá dentro descontrolado e com uma arma na mão... e o Carlos ta esmaiado, caralhooo, caralhoooooo
Rafa – Eu vou chamar a policia. (sai)
Enquanto disca, escuta outro disparo, todos dão um pequeno suspiro de terror e recolhem seus peitos ao aperto do desespero. Teria Sereno dado um tiro em si mesmo? Ou teria ele atirado no peito de Carlos, decidindo sua morte definitivamente?
O telefone da policia dá a mensagem “No momento, todos os nossos ramais estão ocupados, por favor, aguarde”
Rafa – Puta que pariu! Puta que pariu!
Alaíde volta do hall de entrada da agencia e anuncia baixinho que eles chegaram.
Carlinha - A policia?
Rafa (para Carla) – A policia nem atendeu ainda!
Alaíde – Não. Chegou o cliente das 16h.
Rafa – Fodeu.
Cibele – Quem é o cliente?
Rafa – É o pessoal da Disney.
Cibele – ahn?!
Rafa – Eles estão construindo uma Disneyland Brasil lá na Barra e estão aqui para acertamos a campanha deles. Um contrato milionário de publicidade.
Cibele – Caralho! Massa!
Rafa – Porra, massa? Quando eles souberem que tem um maníaco aqui na sala de reuniões maquiado de Coringa e atirando pra todo lado você tem alguma dúvida de que eles vão fechar com outra agência? E no mais, quem atenderia eles?
Cibele – Você, é claro, Rafa, você é o assistente de atendimento!
Rafa – Eu não posso fechar contratos.
Cibele – Pode sim. Aprenda a poder. Vá lá, feche esse contrato, marque um lugar fora da agencia, convide-os para um almoço no mais alto nível. Leva eles lá no Vivacci Ristorant... pague a conta, faça como se você fosse trepar... Chame pra jantar, pague a conta, sorria, faça carinhos e seja o príncipe de Hollywood por pelo menos 30 minutos e aí você créu! neles. E aí a gente pede um aumentoooo! Uhuu! Estrelinhas pra você!
Rafa – (desabafo) O lance é que eu... eu não acredito na publicidade. Somos apenas maquiadores de cadáveres.
Cibele – É... faz sentido. Mas antes maquiar cadáveres do que depilar políticos. Kkkkk!!!
Rafa – Kkkk, boa, boa, muito boa. Antes maquiar cadáveres do que ser o cadáver!
Outro tiro. Na sala de espera, o representante da Disneyland Brasil se assusta e pergunta para o colega se escutara o barulho. O que é isso? Pareceu um tiro, não pareceu? Não, não, deve ser algum problema no encanamento, sei lá, esse prédio é novo, mas todo prédio novo tem uns barulhos estranhos, tu já percebestes?
Entra Alaíde e oferece um café. Disse que Sereno já já viria atendê-los. Enquanto volta até a cena hostil na porta da sala de reuniões, Alaíde consegue chamar a policia.
Alaíde – Meninos, a policia já está vindo.
Cibele – Yes! Eu adoro aventura! Enquanto isso me conta aquele lance dos seres lunares, Rafa.
Rafa – Ah, isso não é hora!
Cibele – Conta, conta, conta, conta! Eu adoro quando você conta suas maluquices!
Rafa – Ok, o lance dos seres lunares, pra você também, Alaíde. O lance é que daqui um tempo, quando a gente voltar à lua e conseguir coloniza-la, pessoas morarão lá e quem nascer na lua será um ser lunar. Entende? Um ser lunar. Uahahahaha
Cibele - Mas de qual nacionalidade?
Rafa - USA, man, USA! É claro, você tem dúvida disso? A lua é dos estados unidos e a sensação que se tinha quando Portugal e Espanha dividiram o Brasil era mais ou menos essa... uma coisa nebulosa de incógnitas, perigos, armadilhas, seres pré-existentes... distância de casa, saudade.
Cibele - Pois eu te digo uma coisa. Alguém que nasça na lua já vai nascer sob uma gravidade diferente, talvez os músculos se atrofiem, pois não precisarão muito deles numa gravidade nove vezes menor que a atual. Você não cresceria muito. Talvez sua cabeça fosse maior, devido à falta de pressão para formar esse tipo redondo de cabeça... Talvez fosse mais oval... Os olhos também. Teríamos olhos grandes, escuros para proteger de tanta luz direta.
Rafa – Você não percebe o que você descreveu!? Você acabou de descrever um ET! Esse ET clássico que a gente conhece.
Cibele – É impressão minha ou o gatinho ta tentando me cantar com um papinho intelectualóide?
Rafa – Ai meu Deus.
Cibele – Por que de duas uma. Ou você ta querendo me cantar, ou você está fazendo apologia ao imperialismo humano sobre o universo, uma hegemonia preconceituosa e absurda, tomando por conta o direito, pela sua existência fundamentada no alicerce das verdades democráticas que existe universo para todos, o que vem de total encontro com um pensamento egoísta! (pausa) Nós não, estamos sós. Ponto!
Outro tiro.
Rafa – Ah, eu vou ter que entrar.
Cibele – Não, você não vai. A policia já ta chegando.
Rafa – Mas se a polícia chegar a gente perde o cliente da Disneyland Brasil. Eu vou. Se eu morrer, no mais, será apenas um egoísta a menos no mundo.
Cibele – Desculpe, não era pra ofender. Ahn... Rafa, vou precisar de um peso para segurar a porta, para que ela não feche depois que você entrar. Você pode me ajudar.
Rafa – Claro, só um instante.
Cibele – O que é isso!? Uma bigorna?! Rafa, você tem uma bigorna?! Meu Deus! Você tem uma bigorna de verdade! Isso é lindo! Eu... me sinto orgulhosa de você. Nunca pensei que um assistente de atendimento tivesse uma bigorna...
Rafa – Eu já falei que não tenho talento para atendimento? Eu queria era trabalhar na criação.
Cibele – é isso. Eu preciso confessar uma coisa antes que você entre lá... eu sou viciada em homens casados! Eu não consigo me livrar deles, nem deles de mim!
Rafa – Ok, mas por quê isso agora, Cibele?
Cibele – hum? Eu só quero dizer que gosto dos homens casados porque eles são mais fáceis! Ponto.
Rafa – E?
Cibele – E você é casado e eu gosto de você, porra, não entra aí não, vamo esperar a policia, cacete!
Rafa – (balbuciando) Você daria pra mim?
Cibele – o que foi que você disse, Rafa?
Rafa – Err, nada, eu quero dizer que, eu gosto de você também. E também te acho interessante.
Cibele – Se você acha interessante, logo você está interessado, certo?
Rafa – Nossa, você é bem direta, mesmo, né?
Cibele – Não sei do que você está falando. Eu só sou eu mesma e talvez seja isso que me atrapalhe um pouco.
Rafa – Com o lance dos homens?
Cibele – Dos homens. É, o lance dos homens.
Rafa – É só me perguntar então, eu respondo, eu sou homem!
Cibele – Por que é que vocês mentem?
Rafa – Ah, não Cibele, isso não é pergunta pra nossa idade. Quantos anos você tem? 15? 16?
Cibele – Ok, nossa pendência é outra. Vamos entrar ou não vamos entrar? Vamos esperar a polícia ou vamos atender a Disneyland Brasil?
CONTINUA. :)